
O Tempo Dir
Robin Jones Gunn
Srie Selena 8

Ttulo original: Time Will Tell
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2002
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat



Para minhas "irms secretas",
Que "concordemente" glorificam o Senhor comigo.
Que sempre possamos glorific-lo,
juntas, na unidade do Esprito de Deus.

No incio do ultimo ano do 2 grau na escola, Selena tem razes de sobra para querer planejar agora seu futuro. Mas por que ser que tudo o que ela tenta fazer parece 
dar errado? Qual o motivo de tantas indefinies na sua vida?  O Tempo Dir 
Selena acaba de voltar de 1 viagem incrvel  Sua, junto com sua amiga Cris Miller. Apesar de tantas lembranas gostosas ela est receosa de que o novo ano escolar 
no seja bem como ela havia planejado. A diretoria da escola impe regras aos alunos que afetam diretamente seu melhor amigo - Ronny. Selena vive um dilema: apoiar 
o amigo ou se submeter s autoridades? 
Para piorar a situao Amy, sua amiga mais chegada, est cada vez mais fria e distante, apesar de todos os esforos de Selena para manter a amizade. Mas o pior de 
tudo  ficar tanto tempo sem notcias do Paul. Ele no tem respondido s suas cartas ultimamente e cada dia sem notcias deixa Selena mais ansiosa. 
Que caminho Selena deve escolher em relao s amizades: usar a razo ou seguir seu corao? E quanto ao silncio de Paul? Ela deve continuar confiando que Deus 
est no controle de sua vida ou deve dar uma ajudinha para que tudo se defina?

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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evanglicos






Captulo Um

      Selena estava parada no estacionamento do restaurante italiano do tio de Amy, "roendo" nervosamente a unha do polegar. Sentiu frio. Vestia um short, uma camiseta 
e estava de sandlia. Encostada no carro da amiga, olhava fixamente para a porta dos fundos, esperando que a qualquer momento ela aparecesse ali. Geralmente a colega 
saa as 8:00h. Deu uma espiada no relgio: 8:20h. Cad a Amy?
      Reunindo coragem, foi at l e abriu a porta devagar. Havia planejado conversar com a amiga ali no carro, quando ela sasse. Assim poderiam resolver o problema 
calmamente. No desejava uma confrontao com Amy no saguo de forma nenhuma.
      Correu os olhos pelo aposento. A amiga no se encontrava em seu lugar de sempre, no posto de recepcionista. Tambm no havia fregueses ali, aguardando o momento 
de serem conduzidos  mesa. Tudo estava em silncio, exatamente como ela imaginara que estaria numa noite de meio de semana, nesse ms de setembro. Fora por isso 
que tivera certeza de que Amy deveria sair s 8:00h.
      Uns passos mais adiante, avistou Ronny, seu amigo, que tambm trabalhava no restaurante. Estava limpando uma mesa perto da entrada. Selena veio por trs, aproximou-se 
bem dele e fez:
      - Bu!
      O rapaz virou-se, dando aquele seu sorriso caracterstico, entortando a boca. A garota compreendeu que ele no se assustara.
      - O que foi? indagou Ronny.
      - Vim aqui pra falar com a Amy. Viu se ela j foi embora?
      - J. Saiu junto com o Nathan. Acho que foram para o The Beet.
      O The Beet era um ponto novo, prprio para jovens, que fora inaugurado alguns meses atrs, no centro de Portland. Nele no se vendia bebida alcolica, e havia 
msica ao vivo, com conjuntos da prpria cidade. Fora o Ronny e seus companheiros da banda que, na primeira semana de aula, haviam lhe informado sobre o lugar. Alis, 
eles tambm estavam na agenda do pessoal l, para se apresentarem no ms de outubro. Isso significava que, finalmente, iriam fazer sua estria.
      - No vi os dois passando pelo estacionamento, comentou ela.
      - , eles saram pela porta da frente. Provavelmente vo para l a p. A esta altura, todas as vagas nas proximidades do The Beet j devem estar ocupadas. 
S resta estacionamento pago.
      - Ah! exclamou a garota em voz baixa.
      - Voc estava esperando h muito tempo?
      - Mais ou menos meia hora.
      Ronny olhou-a com ar de compreenso.
      - Ainda no teve aquela sua conversa com a Amy, n?
      Selena abanou a cabea.
      - E bem que tentei, disse. Mas todo dia na escola parecia que ela tinha de conversar com algum, ou ento precisava ir a algum lugar aps a aula. Liguei pra 
ela. Deixei bilhete no escaninho dela, e nada. E agora...
      - E agora ficou esperando no estacionamento, completou o rapaz tambm abanando a cabea.
      O cabelo dele, que era louro e liso, havia crescido bem durante as frias, e Ronny o estava usando amarrado atrs, num rabo-de-cavalo curtinho. Eles estudavam 
num colgio evanglico, Academia Royal. A junta diretora da escola j havia lhe mandado um aviso dizendo que seu cabelo estava passando do comprimento permitido 
pelo regulamento da escola, como estava na pgina 14 do Manual do Aluno.
      - J sei, principiou Selena, voc me acha uma coitada, andando atrs dela desse jeito. A questo  que no consigo dar nossa amizade por terminada, enquanto 
no tiver pelo menos uma boa conversa com ela.
      - E, ao que parece, a Amy no pensa assim, deduziu Ronny.
      A garota acenou que no, e a ponta de seu brinco comprido esbarrou no queixo.
      - Desanima no, interveio o rapaz, pondo a mo em seu ombro e apertando-o de leve. Lembre-se daquele versculo que voc vivia repetindo pra mim quando chegou 
da Sua.
      E olhou para ela com uma expresso de quem no se recorda.
      - Como  que era mesmo? insistiu ele.
      - "Tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multido de pecados", disse ela mecanicamente, como uma criana cansada de repetir algo.
      - Exatamente! Fique falando a si mesma que tenha amor intenso pela Amy. Uma hora, ela vai perceber.
      - Sei no, replicou Selena, suspirando.
      Nesse momento, um casal idoso que estava sentado numa mesa prxima levantou-se, e Selena arredou para o lado, deixando-os passar.
      - Bom, acho que vou embora pra voc poder trabalhar, disse.
      - 'T bom, concordou Ronny. Amanh a gente se v na escola.
      E o rapaz foi "tirar" a mesa da qual o casal sara.
      Selena deixou o restaurante silenciosamente, do mesmo jeito que chegara. Entrou no carro e o ligou, acionando tambm o sistema de aquecimento. Estava fazendo 
bastante frio para aquela poca do ano. E isso era estranho, pois a aparncia da natureza ainda era de vero. Ela no queria que a estao quente terminasse. Sem 
dvida nenhuma, essas frias tinham sido as melhores de sua vida. Viajara muito. Vira muitos amigos. Vivera experincias diferentes e quase comeara um namoro. E 
assim como no queria que o vero acabasse, no desejava que a amizade com Amy tivesse um fim.
      O desentendimento entre elas fora at muito simples. Sua colega demonstrara interesse em Nathan, um rapaz que recentemente fora trabalhar no restaurante. Um 
dia, Nathan a convidara para sairem. Mais tarde, ela ligara para Selena e contara que os dois tinham "ficado" no carro do rapaz. Imediatamente, Selena criticara 
a colega por ter feito isso. No final, a amiga desligara o telefone meio zangada. A partir desse dia, as duas quase no haviam conversado.
      Selena ficou fora algumas semanas e, quando voltou, teve de "correr" para preparar tudo para o incio das aulas. Ento j fazia mais de um ms que elas no 
tinham contato. E, ao que parecia, sua amiga e Nathan continuavam namorando.
      Entrou na estreita rampa da garagem de sua casa, uma velha manso vitoriana. Desligou o carro, um fusca 79, que agora era s dela, e ficou ali sentada por 
uns instantes. No ano anterior ela o compartilhara com a me. Isso significava que o pai pagava o seguro dele. Agora, eles o tinham dado para ela. Era muito bom 
ter o veculo s para ela, mas tambm implicava mais despesas. E que alm da gasolina, teria de arcar tambm com o seguro.* Enquanto ela tirasse boas notas, os pais 
permitiriam que trabalhasse. Ento, com o salrio que recebia na confeitaria Mother Bear, dispunha do suficiente para suas despesas. Contudo no teria mais condies 
de fazer uma poupana e guardar um dinheirinho para passeios maravilhosos como o que fizera nessas frias.
      ___________________
      *Nos Estdos Unidos, todos os carros tm de pagar seguro obrigatrio, que em alguns casos,  muito caro. (N. da T.)
      
      Ser que sou eu que estou errada? pensou. Ser que estou dando muito valor a essa necessidade de ter uma conversa cara a cara com a Amy? Devo deixar pra l? 
Mas quero provar pra ela que sou sua amiga em qualquer circunstncia. E como vou fazer isso se ela no me da ateno?
      Saiu do carro e o trancou. Foi andando devagar pelo gramado molhado em direo  varanda. Uma luz amarela, no alto da porta, parecia dar-lhe as boas-vindas. 
Certa vez, Amy lhe dissera, em tom meio agressivo, que sua famlia era "certinha", e seu lar, maravilhoso. E nesse momento, de fato, tudo parecia perfeito. Seus 
pais, aps vinte e sete anos de casados, ainda se amavam muito. Sua avozinha, a V May, morava com eles. Ou melhor, eles moravam com ela - a casa era a residncia 
dela. E seus cinco irmos - quatro homens e uma mulher - levavam uma existncia feliz.
      - Antes de entrar, limpou os ps no capacho. Lembrou-se de dez dias atrs, quando, ali mesmo, com os olhos cheios de lgrimas, despedira-se de Wesley, o irmo 
de que mais gostava. Ele estava de sada para Corvallis, onde estudava. Ia no carro novo dele, que mandara equipar todinho. Ela amava muito aquele irmo. E nessas 
frias, tinha se ligado ainda mais a Wesley, buscando apoio nele quando precisava.
      Fora a ele que falara sobre Alex, um rapaz russo, alto e simptico, que conhecera na viagem  Sua. Tambm lhe contara da carta que recebera de Paul, trs 
semanas antes. Paul era um amigo seu, um cara meio enigmtico, de olhos azul-acinzentados, que estava estudando na Esccia. Ela no mostrara a carta ao irmo, mas 
lhe contara que o rapaz dissera que costumava fazer caminhadas nas montanhas daquele pas, cantando louvores a Deus, em voz alta. Wesley no rira, mas cruzara os 
bracos, fizera um aceno positivo de cabea e comentara:
      - Isso  que e um "corao valente".* Continue orando por ele, Selena.
      ___________________
      *Uma aluso ao personagem central do filme Corao Valente, que  escocs. (N. da T.)
      
      Ela aceitara o conselho dele e no somente continuara a orar pelo Paul, mas tambm lhe escrevera duas cartas. Contudo o rapaz ainda no lhe respondera.
      Assim que abriu a porta, sua me, que se encontrava na cozinha, deu uma olhada na direo da entrada para ver quem era. Sharon Jensen estava ao telefone e 
tinha uma expresso de preocupao no rosto. Acenou para a filha, abanando os dedos.
      A garota dirigiu-se para a saleta, o cmodo da casa de que mais gostava. Ali era tambm o escritrio do pai e a biblioteca da av. Gostava de fazer os deveres 
da escola nesse aposento, sentindo o aroma caracterstico dele - uma mistura de couro e livros velhos. Havia deixado a mochila ali, de tarde, quando comeara os 
trabalhos escolares. Entrou e deu com o pai sentado  escrivaninha, tambm falando ao telefone. Ele no olhou para ela.
      Selena pegou seus objetos rapidamente e os enfiou na mochila. Foi ento que ouviu o pai dizer:
      - Est bem, querida, dentro de mais alguns dias a gente conversa de novo. Voc sabe que eu e sua me lhe damos todo apoio na deciso que tomar, no sabe?... 
'T bom... timo... Depois ento voc liga e conta o que decidiu... Tchau.
      Havia apenas trs pessoas que Harold Jensen chamava de "querida". E duas - ela e sua me - estavam em casa. A outra era Tnia, a irm de Selena, que alguns 
meses antes fora morar na Califrnia, para ficar mais perto de Jeremy, seu namorado. Ouvindo o pai despedir-se da irm e desligar o aparelho, a garota comeou a 
sentir-se um pouco tensa com relao a Tnia.
      - Algum problema? indagou quando o pai se virou para olh-la.
      - Tnia precisa tomar uma deciso importante em breve, explicou ele.
      Selena observou que o olhar dele, normalmente tranquilo, agora trazia uma expresso de preocupao. Nesse momento, a me de Selena chegou  saleta. Ela no 
percebeu que a filha estava sentada na poltrona, num canto.
      - No estou gostando nada disso, Harold, comentou ela. O que voc acha?
      O pai de Selena dirigiu os olhos para a garota, e sua esposa virou-se naquela direo. Em seguida, fechou os lbios, dando um sorriso forado para a filha.
      - Oh, no a vi a, Selena! disse. Como  que foi l com a Amy?
      - No deu pra conversar com ela, no, replicou a garota. Ela j havia sado. Acho que vou tentar amanh de novo.
      - tima idia! Tenta sim!
      Selena percebia nitidamente que a me no estava com o pensamento em sua amiga.
      - Tudo bem com a Tnia? indagou, numa tentativa de descobrir o que se passava.
      - Tudo bem, respondeu Sharon Jensen, fitando o marido.
      Nenhum deles explicou nada.
      Puxa! pensou Selena. Tem algum problema por a, mas eles no querem me dizer. Ser que  algo com Jeremy?
      Olhou para o relgio e em seguida voltou a fitar os pais. Notou que eles se comunicavam um com o outro em silncio, como quem diz:
      "No fale nada!"
      - Vou para o meu quarto, disse Selena.
      E teve vontade de acrescentar: "Pra que vocs possam conversar  vontade sobre esse grande segredo da Tnia, sem a minha presena". Contudo no disse nada 
e saiu, fechando a porta. Sabia que deveria estar feliz pelo fato de seus pais fazerem segredo da situao de Tnia. Se fosse com ela, iria querer muito que eles 
no contassem nada para ningum.
      Subindo as escadas com desnimo, resmungou consigo:
      "Que chatice! Tudo pra mim agora  esperar! Esperar outra oportunidade pra conversar com Amy. Esperar a resposta de Paul. Esperar que mame e papai me falem 
do problema da Tnia. Esperar! Esperar! Esperar! Detesto esperar!"
      Entrou no quarto e jogou a mochila no cho, perto do armrio. O quarto estava bem bagunado, demonstrando que ela no tinha mesmo muita preocupao em arrum-lo. 
No tinha nem onde sentar para se entregar  sua crise de autopiedade, que era o que desejava naquele momento. Teve de reconhecer que o aposento estava mesmo horrvel. 
Por toda a parte, viam-se roupas, livros, sacolas, meias, vasilhas, CDs, bons, papis e vrios outros itens espalhados. E o cmodo era bem amplo, mas no tinha 
o menor vestgio de arrumao. Apesar disso, ela sempre conseguia encontrar o que queria. Ademais, achava que havia algo mais interessante a fazer do que organizar 
e guardar seus pertences.
      Se tudo o mais estava em compasso de espera, pensou a garota, o quarto tambm poderia ficar. Deixaria para ajeit-lo no dia seguinte.
      

Captulo Dois
      
      Todavia, do dia seguinte acabou deixando para o outro dia, e para o outro, at que chegou a sexta-feira  noite. Selena entrou no quarto e comeou a sentir 
que precisava dar um jeito naquela confuso. Todos os outros aspectos de sua vida ainda estavam em desordem. Perguntara aos pais sobre Tnia, mas eles lhe disseram 
que preferiam que a prpria jovem contasse para ela e para os irmos. Com isso, entendeu que a tal deciso no tinha nada a ver com casamento ou com a volta dela 
para casa. Se fosse algo assim to radical, os pais certamente no teriam hesitado em lhe contar.
      Alm disso, no recebera nem uma linha de Paul. E Amy, por outro lado, parecia estar fugindo dela. Desaparecia pelo corredor da escola todas as vezes que Selena 
tentava aproximar-se.
      S lhe restava, ento, tomar alguma providncia com relao ao quarto. Resolveu dar uma arrumada nele. Comeou a recolher os objetos espalhados e a coloc-los 
nos devidos lugares. Afinal, o efeito foi mais positivo do que imaginara. No momento em que guardava algumas roupas na cmoda, teve uma idia para conseguir conversar 
com Amy. No dia seguinte, pegaria servio na confeitaria Mother Bear s s 10:00h. Ento decidiu preparar uma cesta de caf da manh e ir  casa de Amy "acord-la". 
Assim tomariam o caf juntas, no quarto da amiga. Dentro da prpria casa, a colega no teria como fugir dela.
      Selena enfiou a mo na lixeira, empurrando o lixo mais para o fundo e colocou mais um punhado nela. Empilhou os livros no cho, perto da cama, e em seguida 
esticou a colcha do outro leito, que pertencera a Tnia. Pegou uma braada de roupas sujas e desceu para o poro, onde ficava a lavadora. Colocou as de cor escura 
na mquina. Aquela era apenas a primeira trouxa. Calculava que o que restara ainda daria mais duas lavadas. Isso significava que iria subir e descer as escadas diversas 
vezes.
      Os cheiros prprios ali do poro lhe trouxeram  mente as recordaes da infncia. Quando era criana, e a familia vinha ali visitar a V May, o poro era 
um timo lugar para se esconder. Certa vez, Selena, que era muito magrinha, entrara atrs de uma pilha de caixas que havia ali. Em seguida, puxara para perto de 
si uma velha lata de lixo, onde estavam algumas ps e uns ancinhos, fechando com ela a entrada do seu "esconderijo". Nos primeiros cinco minutos - mais ou menos 
- achara maravilhoso ficar ali quietinha, sem ser vista. Permanecera sentada no cho, abraando as pernas e sorrindo consigo mesma  espera de que viessem procur-la.
      Depois de alguns instantes, porm, o sentimento de aventura foi se desgastando. O cho cimentado estava gelado e ela ficou com o traseiro dormente. O cheiro 
de mofo, que a princpio lhe parecera extico, acabou deixando-lhe o nariz entupido e os olhos irritados. Ademais no tinha espao para esticar as pernas.
      Afinal, no suportando mais ficar ali escondida, empurrou a lata de lixo, levantou e ps-se a agitar as pernas para se livrar do formigamento. Depois foi subindo 
a escada devagar e se dirigiu ao jardim. Ento encontrou a irm e os quatro irmos olhando para dentro de uma caixa de papelo. Ali estavam seis gatinhos, filhotes, 
miando sem parar.
      Selena ligou a lavadora e voltou o pensamento ao presente. Lembrou-se de que, naquela ocasio, no tivera o menor interesse pelos bichanos. Queria saber por 
que ningum fora procur-la. Por que no tinham se interessado em ir ver onde estava?
      Deu um sorriso ao recordar-se de que Tnia suplicara ao pai que a deixasse ficar com um dos gatinhos. Ele recusara. O Sr. Jesen no gostava de gatos; preferia 
ces. Tnia pegara um deles, to peludinho, cor de caramelo, e o chegara bem junto do rosto do pai. A menina tinha os olhos cheios de lgrimas e o bichinho parecia 
to indefeso! Nem isso o fizera mudar de idia. Contudo, no Natal, a garotinha ganhara um gatinho todo branco. Dera-lhe o nome de "Floco de Neve" e o colocara numa 
caminha bem ao lado da secadora.
      Selena subiu as escadas de dois em dois degraus, largando para trs o cheiro de mofo e as recordaes da infncia. Resolveu preparar a cesta agora, enquanto 
esperava que a mquina de lavar terminasse o ciclo. Pegou uns pezinhos de trigo integral e os colocou numa cesta de vime da me, que se achava pendurada num gancho, 
na cozinha. Tirou da geladeira um vidro de gelia de amora, duas laranjas e dois ovos nos quais estavam desenhados duas carinhas risonhas. Era a me de Selena que 
marcava os ovos dessa maneira. Isso significava que se tratava de ovos cozidos. Ela fazia os desenhos por causa de Kevin e Dilton, os dois filhos mais novos. Dois 
anos antes, Kevin pegara um ovo que, dissera ele, achava que estava cozido, e o quebrara na cabea do irmo. Estava cru. Depois que os meninos brigaram e choraram, 
a me criara aquele "cdigo" - o desenho de carinha risonha.
      Afinal a cesta ficou cheia e Selena cobriu-a com um pano de prato. Sentia-se feliz com a idia que tivera, e muito satisfeita com sua cesta. Nesse instante, 
os dois irmos entraram ali acompanhados do pai. Cada um estava com uma miniatura de automvel feita de madeira e os mostraram a irm.
       - Vou pintar o meu amanh, anunciou Kevin. De vermelho vivo, pra correr mais depressa.
      - Hummm, ficaram bem legais, comentou Selena, examinando atentamente tambm o carro de Dilton.
      Os dois garotos haviam se inscrito num concurso de miniaturas que era realizado no parque municipal. A me entrou na cozinha com uma bandeja cheia de vasilhas 
sujas do jantar.
      - A V May j est dormindo, gente, avisou ela. Acho que est na hora de vocs tambm irem deitar, meninos.
      Aps os costumeiros resmungos e reclamaes, os dois se puseram a subir a escada. O pai foi at o corredor atrs deles.
      - Em silncio, para no acordar a V May! Disse-lhes, cochichando, mas com voz forte.
      - O que voc est fazendo, Selena? quis saber a me.
      - Dando uma arrumada no meu quarto.
      -  mesmo? indagou a outra com uma expresso alegre no olhar. Que bom!
      - Pus algumas roupas na mquina e preparei uma cesta de caf da manh pra mim e a Amy. Estou pensando em ir l amanh e acord-la.
      - Vocs ainda no tiveram aquela conversa?
      - No, e isso est me incomodando, como se fosse um trabalho de escola que ainda no entreguei.
      - Espero que resolva logo essa situao, disse a me, examinando umas vasilhas que estavam na lavadora, para ver se estavam lavadas. Esses problemas de rompimento 
de relacionamento deixam a gente muito insegura.
      Nesse momento, o Sr. Jensen entrou de volta na cozinha e escutou o final da conversa.
      - Esto falando da Tnia? indagou ele.              
      - Imediatamente Selena e a me ergueram os olhos para ele. Esta, com a expresso do olhar, parecia dizer: Cuidado com o que vai dizer. A filha, por outro lado, 
suplicava: Conte logo!
      - ; parece que no, disse o pai, pegando um copo e enchendo-o de gua.
      Ele foi bebendo devagar, olhando para as duas. Quando terminou, colocou-o sobre a mesa, sem explicar nada. Em seguida, deu um sorriso meio sem graa para a 
esposa e disse:
      - Ento, continuem conversando.
      Fez um gesto de despedida, meio brincalho, e saiu para a oficina.
      - Est acontecendo algo com a Tnia que eu preciso saber? indagou Selena assim que o pai se afastou. Quero dizer, j sei que ela tem de tomar uma deciso muito 
importante nestes dias. Agora entendi que tem relao com um rompimento de relacionamento.  com o Jeremy? Ela no vai terminar o namoro com ele, no, vai?
      A me de Selena conclura que as vasilhas que estavam na mquina ainda no haviam sido lavadas e comeou a colocar nela mais alguns copos. No respondeu nada, 
concentrada em fazer o servio. Em silncio, despejou sabo no compartimento apropriado e apertou o boto de ligar. S ai disps-se a falar.
      - No sei ao certo o que devo lhe dizer, querida. Acho que Tnia prefere que no falemos nada, enquanto ela no tomar a deciso final. Faltam poucos dias, 
e creio que ela prefere assim.
      - Mas me, insistiu Selena, a gente  irm. Por que temos de guardar segredo para um membro da famlia?
      A me suspirou e se encostou no balco da cozinha, cruzando os braos. Em seu rosto, estampou-se uma expresso de desalento.
      - Voc tem razo. Sempre agimos assim. Em nossa familia, somos sempre francos e sinceros uns com os outros. Mas creio que  melhor esperar a Tnia tomar a 
deciso dela e depois, sim, poderemos conversar sobre a questo.
      Selena no conseguia imaginar o que poderia ser essa deciso que tinha de ficar em segredo. Voltou ao poro, onde retirou a primeira "trouxa" da mquina, passando-a 
para a secadora e colocando outra braada na lavadora. Tinha esperana de que o segredo da irm fosse algo muito bom, como o gatinho que ela ganhara no Natal, quando 
era pequena. , talvez a novidade que Tnia teria para revelar fosse algo assim.
      Mas, por outro lado...
      

Captulo Trs
      
      Na amanh seguinte, s 7:30h, Selena se aprontou para ir trabalhar e pegou a cesta que preparara. Dirigiu para a casa de Amy, orando silenciosamente, pedindo 
a Deus que lhe desse uma reconciliao pacfica com a amiga. Teve de tocar a campainha trs vezes. Afinal, o pai de Amy veio abrir. Estava vestido com um roupo 
e tinha um aspecto sonolento e mal-humorado.
      - Oh, desculpe! foi logo dizendo a garota. Devo ter acordado o senhor! Vim fazer uma surpresa pra Amy. Trouxe uma cesta de caf da manh pra ns.
      O homem fitou-a com uma expresso de quem est confuso.
      - Meu nome  Selena. Selena Jensen. Sei que faz muito tempo que no venho aqui...
      - Amy foi dormir na casa da me dela ontem, falou ele.
      E sem dar maiores explicaes, fechou a porta. Selena quase deixou a cesta cair.
      Na casa da me dela? O que est acontecendo? A me da Amy mudou-se daqui?
      Voltou para o carro andando lentamente e a se deu conta do quanto estivera "desligada" de tudo que dizia respeito a amiga. No comeo das frias, a colega 
lhe confidenciara que os pais estavam brigando muito e falando em divorciar-se. Selena tentara tranquilizla, dizendo que no devia ser nada srio. Todos os casais 
tm suas desavenas. Tudo acabaria bem, dissera para Amy. Agora estava claro que se enganara.
      Meio aturdida, entrou no carro para voltar para casa. Quando virou a esquina da rua 52, avistou Ronny, que estava cortando a grama no quintal de um de seus 
clientes. No incio do ano ele comeara esse trabalho de aparar gramados e, nas frias, pegara o emprego de "tirar mesas" no restaurante. Com esses dois servios 
e ainda o tempo que dedicava  sua banda - qua ensaiava duas vezes por semana na garagem da casa do rapaz - ele estava sempre ocupado.
      Selena parou o carro junto ao meio-fio e desligou-o. Pegou a cesta e foi andando em direo ao Ronny, acenando e chamando-o. Ele estava com um fone de ouvido, 
ligado a um walkmam que se achava afixado ao cs da cala. Quando j se encontrava a poucos passos, gritou de novo. 
      - Oi!
      Dessa vez, ele ergueu a cabea e avistou-a. Desligou o cortador de grama e tirou o fone.
      - Ei! exclamou ele. O que est havendo? indagou.
      - Voc sabia que os pais da Amy se separaram? perguntou Selena.
      - Sabia.
      - Por que no me contou?                        
      - Pensei que j sabia, que todo mundo sabia.
      - Eu no tinha conhecimento disso, explicou a garota. Fui l agora, e o pai dela me disse. Ele me pareceu bem mal-humorado.
      Ronny olhou para a cesta na mo dela.
      - O que  isso? quis saber ele.
      - Uma cesta de caf da manh.
      - E tem algo pra se comer a?
      - , replicou Selena. Tive essa bela idia de fazer uma surpresa pra Amy, mas s que ela dormiu na casa da me ontem. Puxa, no d pra acreditar! Como  que 
ela est encarando tudo isso?
      - No sei. L no restaurante, ela no conversa muito e, depois, ao terminar o servio, sai com o Nathan. Parece que a me dela se mudou para um apartamento 
em Halsey. Ouvi a Amy contando isso pra algum outro dia.
      - E quando foi que ela saiu de casa?
      - Quando voc estava viajando.
      Selena abanou a cabea e deu um suspiro.
      - Ah, eu sinto muito por Amy, desabafou.
      Ronny concordou com um aceno de cabea e em seguida apontou para a cesta.
      - E ento? O que tem ai? indagou.
      - Por que? Est com fome?
      O rapaz deu um leve sorriso, dando a entender que era uma pergunta tola.
      - Espero que tenha a uns pezinhos de canela fresquinhos, l do Mother Bear, insinuou ele.
      - No, sinto muito. S uns pezinhos de trigo integral, replicou Selena. Lembre-se de que preparei est cesta pra mim e pra Amy.
      - 'T bom, replicou ele, pegando a cesta da mo dela. Po integral  bom.
      Em seguida, saiu caminhando em direo a uma parte do gramado que j havia aparado. Selena seguiu-o. Ronny sentou-se e tirou o pano de prato.
      - Tem algo pra beber? perguntou.
      - No.
      - L na caminhonete tem, disse ele.
      Ergueu-se de um salto e foi ao veculo. Voltou com duas latas de refrigerante. No parecia combinar muito com po integral e ovos cozidos, mas Selena no reclamou. 
Estava satisfeita de, pelo menos, poder conversar com o Ronny. Tinha a impresso de que, no momento, ele era seu nico amigo.
      - O que voc quer primeiro? indagou ela. O po ou o ovo?
      - O que  isso? Ser uma variao daquela velha pergunta: "Quem veio primeiro, o ovo ou o po integral?"
      E o prprio rapaz riu de sua piada.
      - Quero os dois, continuou. Vou fazer um sanduche.
      Tirou do bolso o canivete, abriu-o e limpou a lamina na cala. A seguir, fez o seu sanduche para o caf da manh.
      Selena deu uma olhada pelos arredores, para as casas silenciosas que comeavam a despertar.
      - Ser que no tem importncia a gente estar sentado aqui no gramado desse pessoal, no? indagou ela.
      - Claro que no. Eles no vo se incomodar, no.
      A garota cortou seu pozinho e passou geleia nele. No alto, em meio s copas das rvores, ouviam-se pombas arrulhando. De um lado, havia um canteiro de amores-perfeitos. 
As flores, com a "carinha" engraada, pareciam contemplar aqueles dois ali, deliciando-se com seu banquete matinal. Infelizmente, porm, aquele cenrio to agradvel 
e cheio de paz no se harmonizava com os sentimentos de Selena. Contudo ela fez fora para se acalmar e tentar "curtir" esses momentos que passava ali com o Ronny. 
Talvez ele fosse o nico amigo de verdade que ela teria na escola, nesse ano. Foi ento que se lembrou de perguntar-lhe algo que, sem dvida nenhuma, faria com que 
o colega comeasse a falar sem parar.
      - E a? Como est indo a banda?
      - A Vicki foi ao nosso ensaio ontem  noite, replicou ele, abrindo a latinha de refrigerante. Ela achou que estamos fazendo um som muito legal.
      Fazia algum tempo que Selena no assistia a um ensaio da turma dele. Um dia ela fora l, mas acabara ficando nervosa de ouvi-los tocar a mesma msica vrias 
e vrias vezes.
      - Hummm, que bom! comentou. E vocs j arranjaram um nome que agrade a todos?
      - Quase.
      - Voc quer dizer que o nome do conjunto  "Quase" ou que quase arranjaram o nome?
      Ronny deu uma risada.
      - , podemos colocar esse a na lista. "Quase". Seria bem radical. No. O que quero dizer  que quase escolhemos "Cavalo Branco". Mas o Ben acha que j existe 
um grupo com esse nome. A Vicki falou que d pra checar isso na Intemet. Ento ela vai verificar pra ns.
      - Que legal da parte dela! comentou Selena pensativa.
      Ps-se a comer o pozinho, procurando ao mesmo tempo reprimir o que sentia em relao a Vicki. No incio do ano, a garota havia convidado o Ronny para ir com 
ela a um jantar beneficente de gala, e Selena logo a havia rotulado de "namoradeira". Talvez no fosse uma avaliao muito justa, mas o relacionamento das duas j 
comeara errado. Pouco depois que Selena se mudara para Portland, ela ouvira Vicki conversando com outra garota no vestirio da escola, na primeira semana de aula. 
Estavam falando dela. A outra menina dissera que Selena era "metida". Esta, que escutara tudo do outro lado, dera a volta e as encarara, dizendo que no era metida, 
no. Em seguida, sara do vestirio pisando duro.
      Recordando o episdio agora, reconhecia que no fora a maneira certa de resolver a questo. Com aquela atitude intempestiva, ela apenas provara que as duas 
estavam com a razo. Infelizmente, por causa disso, Selena ficara com a impresso de que no deveria relacionar-se com Vicki. Depois, a outra ainda convidara o Ronny 
para aquele jantar, o que piorara mais a situao. Naquela ocasio, Selena estava comecando a aprofundar a amizade com o rapaz. Ento teve a impressao de que Vicki 
estava se intrometendo entre os dois.
      J quase no final do ano letivo, Ronny e Selena haviam recebido uma tarefa escolar especial. Teriam de trabalhar na Highland House, uma casa que dava assistncia 
aos sem-teto, e onde Selena ainda agora, vez por outra, prestava servios. Vicki tambm fora designada para atuar ali. Entretanto ela no se empenhara muito no trabalho. 
Houve dias em que nem aparecera por l.
      De repente, Selena sentiu vontade de assistir ao ensaio da banda de Ronny. Sabia que era tolice dela. Reconhecia que o faria apenas porque Vicki parecia estar 
muito interessada em seus amigos, e no confiava muito naquela garota.
      Talvez, se Vicki no fosse to bonita, Selena no tivesse tais sentimentos. A moa tinha cabelo castanho-claro, bem liso, que lhe caa pelas costas. Ela o 
penteava partido ao meio e ficava constantemente jogando-o para trs. Tinha sobrancelhas finas e arqueadas, e belos olhos verdes, que chamavam ateno para seu rosto. 
Quando algum olhava para ela, o primeiro ponto que fitava eram os olhos.
      Selena tinha complexo de inferioridade em relao a essa colega. O que mais chamava a ateno nela, para quem a visse pela primeira vez, era seu cabelo rebelde. 
Sabia que tinha olhos bonitos. Eram azul-acinzentados, e algum lhe dissera que eles mudavam de cor, de acordo com o tempo. Seu corpo tambm sempre fora mais semelhante 
ao de um "menino" do que propriamente de uma "senhorita". Contudo notara que ultimamente suas roupas lhe pareciam mais justas no busto. Ou haviam todas encolhido, 
ou seu corpo finalmente entrara em seu estgio final de desenvolvimento. Esperava que a explicao certa fosse a segunda.
      De repente, se deu conta de que havia um bom tempo que estava calada. Ento afastou os pensamentos voltados para si mesma e perguntou ao Ronny como estava 
indo o servio de aparar gramados. Ao que parecia, o rapaz, que estivera preocupado em comer, nem notara que ela ficara em silncio.
      - Tive de largar alguns, por causa da escola, principiou ele. E acho que vou ter de deixar o restaurante tambm. Eles aumentaram minhas horas, passando para 
dezesseis horas por semana. Mas, com a escola e os gramados que ainda tenho, no sobre tempo para a banda.
      - J deu o aviso l?
      - No. Hoje de manh eu estava at pensando e orando sobre isso. O que voc acha?
      - Acho que no vai dar conta de tudo. Vai ter de largar um deles.
      - Ganho mais cortando grama. E quando trabalho sbado o dia todo, d pra terminar tudo. Assim fico com as noites da semana livres para ensaiar com a banda.
      - , parece que voc pode largar o restaurante, e mesmo assim no ter muita perda financeira, comentou Selena.
      - Ontem  noite, pedi a opinio de meus pais e eles disseram que isso era comigo. Falaram que vo me apoiar naquilo que eu decidir.
      - Detesto isso; voc no? interveio a garota. s vezes eu gostaria que meus pais me dissessem o que devo fazer, em vez de deixar a deciso comigo.
      -  mesmo. Engraado, n? Uns anos atrs, eu reclamava que meus pais no me davam muita liberdade para tomar minhas decises. Agora eles do, e ainda reclamo.
      Ronny jogou na boca o ltimo pedao de po. Uma migalha de gema de ovo ficou presa no canto da boca. Selena lhe fez um gesto indicando que a limpasse. Ele 
passou a mo no lugar e em seguida disse com firmeza:
      - Vou dar o aviso l no restaurante hoje  tarde.
      - Quantos gramados voc ainda tem pra fazer?
      - Oito.
      - E so todos grandes como este?
      Ronny correu os olhos a sua volta.
      - Alguns so, respondeu. Outros so menores. Sei l. Gasta mais ou menos uma hora em cada casa, menos em algumas daqui de perto. Nessas, gasto mais ou menos 
meia hora. No sbado, fao dez casas. Tenho de trabalhar o dia inteiro, mas como eu disse, ganho um bom dinheiro.
      - Ento  melhor eu deixar voc trabalhar um pouco, disse Selena. Obrigada por ter aceitado meu caf da manh.
      - De nada, replicou o rapaz, rindo. Sempre que quiser, estou s ordens. Que pena que Amy no estava na casa do pai dela! Mas com isso eu sa lucrando, completou 
ele, batendo de leve na barriga, com ar satisfeito.
      Selena pegou a cesta, entrou no carro e foi para o trabalho. Quando ali chegou, j havia uma fila longa. Lavou as mos, colocou o avental e foi substituir 
a Jody no caixa. No ar, espalhara-se o delicioso aroma de pozinho recm-assado misturado ao de canela. E cada vez que algum abria a porta, deixando escapar um 
pouco daquele cheiro, mais gente se sentia atrada a entrar.
      A garota reconhecia que tinha um timo emprego. Gostava muito dos colegas de trabalho e principalmente de D. Amlia, a dona da confeitaria. Ela fora bastante 
compreensiva quando Selena pedira uma licena para ir  Califrnia, nas frias. Depois, de l, ela ligara para a patroa, avisando que iria ficar mais uma semana 
fora.  que recebera um convite para viajar  Europa com sua amiga Cris. D. Amlia lhe respondera que estava bem e que no precisava se preocupar. Nessa "fugida" 
para a Alemanha e a Sua - que apesar de curta fora muito importante - Selena aprendera algumas lies preciosas. Ela entendera melhor um aspecto do relacionamento 
humano. Compreendera que no podemos enfiar as amizades em "formas" pr-fabricadas, nas quais elas no cabem. Ainda no sabia bem aplicar esse princpio no dia-a-dia, 
mas iria tentar. E Amy era uma das pessoas com quem queria tentar aplic-lo.
      No mometo em que lavava o coador da mquina de caf expresso, viu dois clientes entrarem correndo pela porta. Uma chuva comeara a cair de repente, e os dois 
estavam ensopados. O brilho e a beleza do vero haviam acabado.
      

Captulo Quatro
      
      Selena no chegava a detestar a chuva, mas tambm no gostava dela. Era algo a que j se acostumara ali em Portland. s vezes, achava gostoso escutar o leve 
tamborilar das gotas na janela do quarto. Esse rudo tinha um efeito tranqilizante. Em outras, porm, a chuva significava que no poderia ir ao jogo de beisebol 
nem passear com Brutus, o co So Bernardo da famlia.
      Encerrado o perodo de trabalho, foi para casa e subiu imediatamente para o quarto, ainda meio desarrumado. Pegou uma cala jeans, um moletom velho do irmo 
do qual se apossara sem o perceber e foi para a banheira. Fazia um bom tempo que no tomava um banho de imerso.
      Ps-se a esfregar a pele para remover o cheiro de caf e de canela que se impregnara nela, tentando no pensar em nada. J verificara a caixa do correio; no 
chegara nenhuma carta de Paul. Grande novidade! Tambm no queria comear a especular com relao ao segredo de Tnia. E quanto a Amy, achava-se muito desanimada 
de tentar contactar a amiga.
      Amizade  uma rua de mo dupla, no ? Ento no sou s eu quem deve ficar correndo atrs!
      No tinha muita certeza se estava pensando nisso com relao  Amy ou ao Paul. No tinha importncia. Os dois pareciam ter adotado atitude igual: o silncio. 
E o mesmo se poderia dizer da tal deciso que Tnia deveria tomar.
      Quem disse que o silncio  de ouro nunca deve ter tido amigos e parentes iguais aos meus, pensou.
      Afinal ela se cansou do sossego do banheiro e saiu da gua. Vestiu as roupas caseiras confortveis. Em seguida, desceu para o andar de baixo, desejando um 
pouco do barulho e da agitao da famlia.
      Sua me, V May e Dilton se encontravam na cozinha. A me estava colocando uns pratos no balco, e o garoto olhava para sua miniatura de carro para ver se 
a tinta se secara.
      - Se pegar, vai deixar marca de dedo nele, avisou Selena.  melhor largar quieto a a noite toda e s pegar amanh.
      Ao que parecia, era uma deciso dificil para o menino. No sabia se seguia o conselho da irm ou se obedecia ao impulso de tocar no objeto. Acabou cedendo 
ao impulso. Ele espiou para um lado e para outro meio sem graa, para ver se algum o havia notado. Selena estava de olho nele.
      - Est quase seco, comentou Dilton, procurando demonstrar naturalidade.
      E foi saindo dali, limpando despistadamente a tinta vermelha que lhe manchara o dedo.
      - Ah! Peguei! exclamou Selena, rindo.
      - O que foi? indagou V May que estava na pia lavando uma xcara.
      - Eu estava conversando com Dilton, v, explicou a garota. Me, o que vai ter no jantar?
      - Seu pai foi buscar comida no restaurante chins.
      - timo! disse Selena, sentindo a disposio aumentar.
      - Ah! fez V May, contraindo a rosto com desprazer. Acho que no quero comida chinesa, no. Estou com vontade de tomar uma sopa.
      E se dirigiu para a despensa.
      - Mais algum vai querer sopa? perguntou de l.
      - No, obrigada, disse Selena, respondendo pelas duas. 
      - Deixe-me cuidar disso pra senhora, V May, interveio a me de Selena.
      - Eu consigo fazer isso sozinha, Sharon, replicou a av.
      - Eu s quero ajud-la, me.
      V May virou-se e fitou a nora com expresso de espanto.
      - Eu no sou sua me, sou?
      - Mas o Harold, seu filho,  meu marido, explicou calmamente a me da garota.  minha sogra, mas pra mim  como se a senhora fosse minha me.
      - , sei disso, replicou a av em tom irritado.
      Ela tinha na mo uma lata de canja que colocou no balco.
      - E est casa  minha. Vocs esto todos morando comigo e no querem deixar que eu faa uma sopa pra mim.
      A me de Selena afastou-se. A garota sabia que, quando a av ficava confusa, era melhor no conversar muito. Contudo, naquele momento, ela no parecia estar 
com a mente embaralhada. Tudo que dissera era verdade. A casa era dela, sim. A famlia de Selena viera da Califrnia para morar com V May, porque haviam sentido 
que esta no tinha mais condies de viver sozinha. E todos eles tinham precisado se adaptar. Entretanto, desde que moravam ali, havia quase um ano, Selena nunca 
ouvira a av afirmar que a casa era dela, como se algum estivesse querendo negar esse fato.
      - No queremos impedir a senhora de nada, V May, explicou Sharon calmamente. S queria ajudar.
      - Ajudar a abrir uma lata de sopa? Acho que no preciso disso. A vida toda, nunca precisei de ajuda para abrir uma lata de sopa.
      E continuou a resmungar, ao mesmo tempo em que prociurava um abridor de latas na gaveta. Pegou-o e ficou tentando ajust-lo na beirada da lata. Contudo essa 
atividade simples para qualquer um era problemtica para ela que tinha mos trmulas. Afinal, conseguiu ajust-lo e foi abrindo a lata com enorme esforo. Selena 
teve vontade de auxili-la, mas sabia que era melhor deixar que a av o fizesse sozinha.
      Finalmente, com a lata aberta e a tampa segura apenas por um fiapo de metal, V May foi pegar uma panela. Tirou uma do armrio e derramou nela a sopa. Em seguida, 
com gestos lentos, girou o boto da trempe para acender o fogo. Selena ficou admirada ao perceber como tudo aquilo parecia dificil para a av.
      Deixando a sopa no fogo, V May voltou a despensa para pegar um pacote de biscoitos cream cracker. Tirou uma tigela no armrio e uma colher na gaveta. Parecia 
estar envolvida com seu pequeno mundo particular. Selena no tentou conversar com ela nem procurou ajud-la. Ficou conversando com a me e pegou um pano para dar 
uma limpada na pia, como fazia no seu servio. Contudo ambas, com o canto dos olhos, se achavam atentas aos movimentos de V May.
      Assim que a sopa comeou a ferver, a av arranjou um pegador de panela e vagarosamente foi despejando a comida na tigela. Em seguida, com a refeio na mo, 
dirigiu-se  sala de jantar, deixando Selena e a me sozinhas na cozinha. Foi ento que Selena comeou a compreender a tenso em que a me estava vivendo todos esses 
meses, desde que, carinhosamente, havia passado a cuidar da sogra. Muitas vezes tinha de ir atrs dela, pela casa, atenta para que a senhora no fizesse nada que 
pudesse causar dificuldades a outros ou a si mesma. V May lhe dava mais trabalho do que os filhos pequenos, quando estavam aprendendo a caminhar.  que, sempre 
que quisesse, ela podia encerrar os meninos no cercadinho, mas no poderia fazer o mesmo com a sogra. A V May andava aonde queria, abria portas, acendia o fogo 
e poderia at sair de casa e se perder.
      - Ser que tem algo que eu possa fazer pra ajudar? perguntou a garota para a me.
      - Para o jantar?
      - No, replicou Selena, com essa trabalheira que a senhora tem com a V May.
      A me deu de ombros.
      - Ultimamente ela at que tem passado bem, respondeu.
      - , eu sei. Mas a senhora no tem de ficar de olho nela o tempo todo?
      A me fez que sim.
      - Quem sabe eu poderia sair com ela, passar uma tarde fora de casa, para a senhora no ter de se preocupar pelo menos por algumas horas?
      - Precisa no, Selena. Sua vida tambm est muito cheia. Voc est no ltimo ano da escola, tem seu trabalho e tudo o mais.
      - Mesmo assim posso fazer algo por V May, insistiu a garota, falando alto, mas baixando a voz em seguida. Eu quero ajudar de alguma forma.
      Nesse momento, chegaram o pai e Kevin trazendo as caixinhas de comida chinesa.                            
      - Vamos comer logo enquanto est quente, disse o Sr. Jensen. Eu e o Kevin quase abrimos esse negcio no caminho e comeamos a comer.
      A me de Selena foi pegar umas colheres de servir ao mesmo tempo em que dizia para a filha:
      - Se voc quiser planejar um passeio com ela, pra mim tudo bem. Mas converse antes com V May. Ela gosta de ter tempo para pensar bem em tudo e analisar as 
mudanas que ocorrero em sua rotina de vida.
      A garota foi para a copa, onde a av estava se levantando da cadeira. Sentiu um impulso de ajud-la, mas conteve-se.
      - Tem certeza de que no quer mesmo a comida chinesa, v? indagou. Est com um cheirinho muito bom.
      - No, no Isso aqui est bom pra mim. Mas a sopa est quente demais. Vou para o meu quarto, esperar que ela esfrie.
      Com um movimento rpido, Selena se aproximou dela e pegou a tigela antes que a av a segurasse com suas mos trmulas.
      - Deixe que eu levo pra senhora, disse ela.
      - Obrigada, Queridinha, respondeu a av. Eu agradeo muito.
      Selena soltou um suspiro de alvio. Ao que parecia, sempre que a av a chamava de "Queridinha" estava com a mente lpucida. Ouvir esse nome, para Selena, significava 
o mesmo que escutar o grito: "campo livre!" Quando eles eram pequenos e brincavam de pique, era assim que anunciavam uns para os outros que poderiam sair do esconderijo, 
pois o pegador no estava por perto. Tudo estava bem.
      A garota foi seguindo a av, enquanto esta subia a escada. Parecia que cada degrau exigia um esforo maior da senhora. E mais uma vez Selena ficou impressionada 
ao constatar o quanto a vida diria era penosa para sua amada avozinha. Afinal as duas chegaram ao quarto e a av se acomodou na poltrona.
      - Mais alguma coisa, v? indagou Selena assim que V May acabou de se ajeitar.
      - No, no. Aqui est timo. Obrigada! concluiu ela, dando um sorriso agradvel e com um ar de quem diz: "Pode ir agora!"
      Descendo a escada, a garota se lembrou de que, pouco depois que haviam se mudado para aquela casa, ela criticara os pais mentalmente.  que eles, s vezes, 
no chamavam V May para se sentar  mesa com a famlia. Agora comeava a compreender a razo disso. Como todos eles juntos normalmente eram meio agitados e barulhentos, 
era melhor para a av ficar sozinha no quarto grande e confortvel. Assim ela gozava de um ambiente mais calmo e tranquilo.
      Quando a garota voltou  cozinha, os outros j tinham se servido e estavam sentados em torno da mesa da sala de jantar. A se recordou de que havia pensado 
em convidar V May para sair com ela um dia, s as duas. Deixaria isso para depois. Agora aquela cheirosa comida chinesa estava "chamando-a".
      Selena serviu-se de arroz com carne. Era o resto que ficara na caixa. Ficou satisfeita ao ver que Dilton no pusera tudo no prato dele, j que essa era sua 
comida predileta. A garota desembrulhou os "palitos" que tinham vindo junto com a refeio e ia levar  boca o primeiro pedao de came, quando o telefone tocou. 
Ainda com o prato na mo, pegou o fone. Era sua irm.
      - Oi, Tnia! disse a garota, imitando o jeito de seu amigo Ronny cumprimentar. O que  que est rolando?
      - Pra falar a verdade, muita coisa, replicou a outra.
      - Voc deve estar querendo falar com papai ou mame, n? disse Selena, equilibrando o aparelho no ombro e levando  boca um pedao de came.
      - No; acho at bom ter sido voc quem atendeu. Gostaria de saber sua opinio sobre uma questo.
      Selena deixou a carne cair de volta no prato. Ps a comida sobre o balco e se encostou no mvel. Estava boquiaberta; quase no acreditava no que ouvia. Em 
toda a vida, a irm nunca dissera algo assim.
      - O.k., disse ela em tom controlado, procurando no demonstrar o espanto nem a satisfao que sentia pelo fato de finalmente ficar sabendo do grande segredo. 
O que  que est acontecendo? indagou.
      

Captulo Cinco
      
      - O que foi que mame e papai lhe contaram? perguntou Tnia.
      - Nada.
      Tnia soltou um suspiro.
      - Eles so mesmo os melhores, no so, Selena?
      A garota ficou sem entender.
      - Os melhores o qu? indagou.
      - Os melhores pais do mundo, explicou a irm. Achei que eles poderiam ter contado algo para voc. Mas j deveria saber que guardariam segredo. Sou to agradecida 
a eles. Voc vai ver, quando sair de casa. A compreender como em casa tudo  bom demais!
      Selena pensara que a irm iria revelar-lhe o grande segredo, mas agora ela parecia interessada em falar s sobre os pais. A garota j sabia o quanto eles eram 
maravilhosos. Isso no era novidade para ela. Pegou os palitos de novo e, fmalmente, conseguiu pr na boca a primeira "garfada".
      - Humm, hummm, disse, replicando a irm.
      - Eu preciso tomar uma deciso muito importante, continuou Tnia. J conversei com mame e papai sobre a questo uns dias atrs. J falei com Jeremy tambm, 
 claro. Alis, muitas vezes. Comentei ainda com alguns amigos. Agora queria sua opinio, antes de dar o passo seguinte.
      -  Ahn-hummm, replicou Selena de novo.
      - Est jantando? quis saber Tnia.
      Selena engoliu a comida e respondeu:
      - Estou. Arroz chins! Uma delcia! Peguei a ltima poro.
      - Oh! fez Tnia, dando um suspiro.  daquele restaurante chins que fica no centro da cidade? Tenho uma saudade daqueles bolinhos deles!
      - Ah,  mesmo! Os bolinhos de ovos! exclamou Selena.
      E com isso saiu para procurar os bolinhos nas caixas de comida.
      - Desta vez eles no vieram. Ou ento todo mundo j os pegou antes de mim. Mas ainda tem um resto de arroz e um pouco de frango com castanha de caju.
      E com isso, Selena enfiou o "palito" numa caixa e pegou um pedao de frango.
      - Hummm! continuou ela. E esse frango est delicioso!
      - Ei! Voc est me torturando! gritou Tnia do outro lado da linha.
      - Ento estamos quites, interveio Selena, quase sem parar para pensar. Estou passando por tortura mental tentando descobrir qual e o seu grande segredo.
      Tnia fez uma pequena pausa e em seguida soltou tudo de uma vez:
      - Encontrei a minha me biological Ela mora em Reno. Tenho vontade de conhec-la, mas no sei como devo agir.
      Selena sentou-se num tamborete junto ao balco.
      - Como foi que voc a descobriu? indagou.
      - Um dos colegas de Jeremy, na faculdade, precisava realizar um trabalho de pesquisa para uma das matrias da escola. Uma noite, o pessoal da nossa turma estava 
sentado conversando e, de repente, eu disse: "Voc poderia descobrir a minha me. Assim eu no preciso pagar um detetive particular e economizo uma grana". Ele achou 
a idia tima. E aceitou fazer a investigao.
      Selena quis que a irm continuasse, mas parecia que esta preferia que ela fizesse perguntas. Ento resolveu atender.
      - Como   o nome dela?
      - Lina. Bonito nome, n? Lina Rasmussen.
      - E mora em Reno? indagou Selena.
      Imediatamente, a garota imaginou uma mulher de meia idade, talvez uma bailarina, o que seria uma grande decepo para a irm.*
      ___________________
      *A cidade de Reno, como Las Vegas, vive da industria do jogo, e ali existiu muitos cassinos e clubes notumos. Da a suposio de Selena. (N. da T.)
      
      - Ela trabalha l, na universidade, prosseguiu Tnia, desmanchando a imagem mental que Selena criara.
      - O que mais voc descobriu sobre ela?
      - Muito pouco, replicou a jovem, falando devagar. Ela tinha quinze anos quando eu nasci.
      - S quinze! Puxa! Coitada! Foi por isso que ela a entregou para ser adotada!
      No instante em que Selena fez esse comentrio impensado, arrependeu-se. Tnia sempre ressentira muito o fato de ser filha adotiva.
      - Desculpe, Tnia! interveio ela prontamente. No tive a inteno de mago-la!
      - No, replicou a jovem. Tudo bem. O Jeremy tambm disse mais ou menos o mesmo. Falou que, considerando a outra alternativa, fora at muito bom que Lina tivesse 
resolvido me entregar para ser adotada.
      - Sei, falou Selena. Voc quer dizer que a outra alternativa seria abortar?
      Assim que a garota fez a pergunta, ps a mo na boca.
      - Ih, dei outro "fora"! Desculpe de novo, Tnia. Estou falando demais.  que fiquei muito chocada com o que voc disse.
      - No esquenta, no, replicou Tnia. Voc tem razo. Lina poderia ter abortado, e a hoje eu no estaria aqui. Alis, essa  uma das razes por que quero v-la, 
continuou a jovem em tom emocionado. Quero agradecer-lhe pessoalmente por ter me deixado viver. Vou lhe dizer que a deciso que ela tomou foi a melhor possvel.
      Selena sentiu os olhos cheios de lgrimas.
      - Acho que ela vai ficar muito feliz! comentou.
      - Sei que esse negcio de procurar os pais biolgicos nem sempre d muito certo, prosseguiu Tnia. Uma colega de trabalho me contou que sua prima descobriu 
o pai biolgico e depois ligou para ele. O homem lhe bateu o telefone na cara. Ento ela lhe escreveu uma carta, mas ele no respondeu. Parece que tem gente que 
quer esquecer completamente o fato de que gerou aquele filho. E no gosta quando algum os relembra disso
      - Voc vai escrever pra Lina, ou telefonar pra ela, ou o qu?
      - No sei ainda.  por isso que quero sua opinio. Conversei com papai e mame para me orientarem sobre como devo agir, mas eles disseram que isso  comigo. 
Depois mame me ligou e disse que ela e papai tinham opinies diferentes. Ela acha que devo escrever. Papai acha que devo telefonar.
      - E voc? O que acha? indagou Selena.
      - Estou indecisa. Jeremy  de opinio que devo ir procur-la. Assim ela no vai poder desligar o telefone na minha cara nem deixar de responder a uma carta.
      - , mas assim voc estaria "forando a barra", comentou Selena. Quero dizer, imagine s uma garota passando o que ela passou aos quinze anos. A, quase vinte 
anos depois, voc simplesmente aparece na frente dela.
      -  verdade. Por isso  que gostei da sugesto de mame, escrever para ela primeiro. Assim posso dizer aquilo que realmente quero e agradecer por ter me dado 
vida. E se ela no sentir vontade de responder, pelo menos fiz o que queria: dizer para ela tudo o que penso.
      - Ser que isso tudo no deixa papai e mame aborrecidos, no? indagou Selena.
      - Sei l. No comeo, eles ficaram um pouco espantados, mas me deram total apoio. Voc sabe como eles so, n? Mas hoje, j no tenho muita certeza. Mame disse 
algo que me deu a impresso de que est um pouco incomodada, sim. Deu a entender que quer que eu termine logo com isso.
      - , afinal foi ela que a criou, comentou Selena.
      - Sei, interveio Tnia. E  por essa razo que, quando falei de Lina, no disse que era minha "verdadeira" me. Para mim, ela  apenas me biolgica. A verdadeira 
 a mame. E j falei isso pra ela.
      Selena remexeu-se no tamborete, procurando uma posio mais cmoda.
      - , concordou, e sei que fazia muito tempo que voc queria procurar sua me. Uma vez voc me disse que iria contratar um detetive para isso. Mas parece que 
Deus est resolvendo tudo muito bem.
      - Tambm penso assim, disse Tnia. E parece que o Jeremy est mais empolgado do que eu. Disse que preciso consolidar meu senso de identidade.
      - Que  isso?
      - Eu preciso ficar bem certa sobre quem sou e como Deus quer que eu seja. Mas eu mesma ainda no sei direito o que acho de toda essa questo, falou Tnia com 
um suspiro. Tenho uns conhecidos que so adotivos e disseram que raramente pensam nos pais biolgicos. Eu no sou assim. H muito tempo que esse assunto vem me perturbando. 
Quero ver se meus olhos so iguais aos dela. E talvez ela me diga que minha risada lembra a do meu pai. Quando eu era pequena, volta e meia algum - que no nos 
conhecia bem - dizia: "Voc no se parece nem com seu pai nem com sua me". Ou s vezes eu escutava comentrios assim: "Os filhos do Harold e da Sharon se parecem 
tanto uns com os outros, menos a garota mais velha!" Isso me deixava muito incomodada.
      - , interveio Selena, mas "a senhora" no deve ter escutado os outros comentrios que eu ouvia. Eles diziam: "Essa Tnia  muito mais bonita que a irm dela". 
Foi isso que tive de aguentar a vida toda. Sempre estive em segundo plano com relao a voc.
      - Selena! exclamou Tnia em tom de espanto. Logo voc, que sabe muito bem que no devemos nos comparar uns com os outros, vem me dizer isso?
      - Voc tambm no estava se comparando?
      Tnia fez uma pausa.
      - , comparei, sim. E o Jeremy vem me dizendo o mesmo h muito tempo. Foi exatamente por esse motivo que ele afirmou que preciso consolidar meu senso de identidade. 
Teoricamente, sei que meu senso de identidade deve vir de Jesus. Eu deveria estar procurando saber como Deus quer que eu seja. Mas creio que ainda no apliquei isso 
na realidade.
      Selena fez que sim. Entendia muito bem essa questo. Estava achando maravilhoso a irm abrir o corao para ela. Por uns instantes, ambas permaneceram em silncio. 
Selena comeu outra garfada.
      - E a? Voc e o Jeremy esto ficando firmes no namoro? indagou.
      - Tem hora que acho que sim, explicou a irm. Outras vezes fico meio em dvida. Ele nunca me falou em casamento, se  o que voc quer saber.  que primeiro 
pretende terminar a faculdade, mas quer muito que continuemos o namoro. Nos no conversamos sobre nenhuma outra possibilidade. Ah, e por fallar nisso, como vai seu 
relacionamento com o Paul? Um tempo atrs,  voc me disse que ele lhe escreveu. J recebeu mais cartas dele?
      - No. Escrevi duas vezes pra ele, mas ele no respondeu. Ento decidi esperar um pouco e ver se ele manda uma resposta. S depois  que vou escrever de novo. 
Num relacionamento com um rapaz  muito dificil ter certeza de algo, n? Uma hora a gente pensa que est com "luz verde" e, de repente, ela fica "amarela". Nunca 
sei se o sinal est aberto e posso seguir em frente ou se est fechado e tenho de parar.
      Tnia soltou uma risadinha alegre, revelando que compreendia muito bem o que a irm dissera.
      - , disse ela, voc expressou tudo com muita clareza. Rapaz  assim mesmo.
      Selena olhou para fora.
      - Quero dizer, eu abri o corao pra ele e falei coisas que no digo pra quase ningum, comentou ela, sentindo lgrimas lhe brotarem dos olhos.
      - , concordou Tnia, a gente sente que se exps.  como se tivssemos dado o corao para um rapaz e depois ficssemos com medo de o cara "pisar" nele.
      Selena fungou e em seguida respondeu com voz rouca:
      - Isso mesmo!
      - Mas vai dar tudo certo, Selena, interveio Tnia prontamente. Ainda que ele no responda as cartas, est tudo bem. No se feche, no, viu? No perca nunca 
essa espontaneidade, esse jeito franco. Seja sempre como voc , mesmo que uma hora diga algo de que depois se arrependa. Todo relacionamento, na verdade,  um processo. 
A gente vai aprendendo  medida que "caminha".  assim para todo mundo.
      Selena pegou um guardanapo na cesta que se achava na ponta do balbo e limpou os olhos.
      - Eu queria entender melhor todos os aspectos do relacionamento humano e j saber antecipadamente tudo que ir acontecer, comentou a garota, pensando em Paul 
e tambm em Amy. E se tivesse conhecimento de antemo do que o outro estava pensando e do que iria acontecer com ele, j saberia o que pensar e como deveria agir.
      - Infelizmente, Selena, a vida no  assim. Muitas vezes a gente conhece muito pouco a respeito dos outros; e tem de agir com base nesse pouco. Dessa forma, 
temos de confiar mais em Deus.
      - , concordou ela. E isso se aplica ao meu relacionamento com Paul e a deciso que voc tem de tomar com relao  sua me biolgica, se vai telefonar ou 
escrever, n?
      Tnia permaneceu uns instantes em silncio e depois respondeu:
      - , tem razo.
      - Todo mundo pode dizer que voc deve ligar pra ela, que o sinal est aberto. Mas depois voc pode descobrir que ele est fechado; e se avanar, tera um monte 
de problemas.
      -  verdade, disse Tnia em voz baixa.  isso mesmo. Creio que vou ter de seguir o que eu mesma disse. Tenho de agir com base no pouco que sei. Nessa questo, 
tenho de confiar totalmente em Deus.
      - E como vai saber se tomou a deciso certa? perguntou Selena.
      - Acho que s o tempo dir!
      

Captulo Seis
      
      Selena entrou na classe no momento exato em que a campainha acabava de tocar. Era aula de Literatura. A Prof. Charlotte olhou-a com uma expresso sria, como 
que a repreendendo. A garota sentou-se e pegou o caderno, sentindo o corao bater rpido. Atrasara-se porque ficara conversando com Amy no corredor.
      Havia avistado a amiga perto do escaninho pouco antes da hora de a aula iniciar. Resolvera seguir o conselho de Tnia, pois tinha a impresso de que o "sinal 
estava aberto". Caminhara direto para a amiga.
      - Oi! dissera. Ser que d pra gente conversar depois da aula?
      Pega de surpresa, Amy respondera:
      - Tudo bem!
      Selena ento lhe sugerira que as duas se encontrassem ali, perto do escaninho. E ficara combinado. Estivera procurando confiar totalmente em Deus, como aconselhara 
Tnia.
      - Vou dar um trabalho para sexta-feira, disse a Prof. Charlotte, distribuindo umas folhas de papel. Isto  uma lista de escritores, com o ttulo de algumas 
obras de cada um. Vocs vo escolher um dos livros de um autor e fazer uma anlise literria. Quem quiser crditos a mais pode fazer dois trabalhos. Na outra folha, 
esto as perguntas que vo responder para a anlise.
      Selena correu os olhos pela lista e reconheceu apenas metade dos nomes.
      - Olhe aqui, gente, continuou a professora, encostando-se na ponta da mesa, no deixem para fazer o trabalho l pelas 10:00h da noite de quinta-feira, no. 
Vo logo  biblioteca, tirem o livro e leiam o captulo marcado. Naquela mesa no fundo da sala, h algumas das obras da lista. Quem quiser, pode pegar emprestado. 
Mas  s at sexta-feira.
      Ao fim da aula, a professora deu alguns minutos para os alunos examinarem os livros. Selena foi  mesa, pois decidira pegar um deles. Escolheu uma coletnea 
dos poemas de Emily Dickinson. Vicki tambm se aproximou e pegou uma obra de Henry Wadsworth Longfellow.
      - Selena, disse ela, eu estava pensando que poderamos dar uma sada juntas, pra fazer algo.
      A garota olhou-a sem entender.
      - Fazer o qu?
      O rosto de Vicki avermelhou-se.
      - Sei l, disse. Fazer umas compras ou lanchar.
      Selena controlou-se para no demonstrar espanto.
      - Claro, respondeu afinal. Podemos, sim.
      - Que tal depois da aula, ento? indagou Vicki.
      - Hoje j tenho um compromisso.
      - Ento amanh.
      - Amanh tenho de trabalhar, explicou Selena.
      - 'T bom, outra hora ento, prosseguiu a colega. Quando voc tiver uma folga me avise, 't?
      - O.k.! disse Selena.
      Em seguida, enfiou os braos nas alas da mochila, firmando-as nos ombros. Dirigiu  colega um olhar de dvida.
      Achei que ela no ia muito com a minha cava, pensou. Ser que est pretendendo algo? O que ser? Ser interesse no Ronny?
      Pondo de lado as indagaes com relao a Vicki, Selena passou o resto das aulas pensando em como conversaria com Amy na sada. Planejou tudo direitinho, mas, 
quando chegou junto ao escaninho para esperar a amiga, percebeu que estava um pouco nervosa. Ronny aproximou-se.
      - J lhe contei que dei o aviso no restaurante? indagou ele.
      - No, replicou ela. Deu prazo de duas semanas?
      - Dei, retrucou o rapaz. Falei duas semanas, mas o cara disse que, se eu trabalhar no horrio do almoo no sbado, posso sair esta semana mesmo.
      - E como vai fazer com os gramados marcados pra sbado?
      Ronny deu de ombros.
      - Peo algum pra trabalhar pra mim.
      A garota notou que ele amarrara o cabelo atrs, como num rabo-de-cavalo, e enfiara a ponta dele debaixo do colarinho. Parecia querer escond-lo.
      - E no que deu o aviso que a secretaria lhe deu com relao ao comprimento do seu cabelo? perguntou ela.
      - Nada.
      - Vai cortar?
      - No sei. Hoje no almoo, todo mundo estava dizendo que essa norma  meio sem sentido. Disseram que eu deveria fazer um requerimento pedindo para a mudarem. 
Acham que o regulamento deve exigir apenas que a gente esteja com o cabelo sempre limpo e bem penteado; e que, estando assim, o comprimento no importa.
      - E assim voc vai mudar um regimento que j tem cinnquenta anos?
      O rapaz deu de ombros novamente.
      - Bom, eu no me considero exatamente um aluno rebelde.
      - Mas ser que eles no esto achando isso, pelo fato de ter deixado o cabelo crescer?
      - Deixei comprido por causa da nossa banda, explicou Ronny. Acho que assim a gente fica mais de acordo com o pessoal que frequenta o The Beet. O que voc acha?
      - Sei l, replicou a garota. Nunca fui ao The Beet. Tambm no prestei ateno ao cabelo do pessoal da banda. Tem certeza de que vai ficar de "p firme" nessa 
questo?
      Ronny ajeitou a mochila no ombro.
      - No sei.
      - Pretende conversar com seus pais sobre isso? quis saber Selena.
      - , talvez eu devesse.
      O rapaz ergueu o olhar, fitando algum que se aproximava, e deu um cumprimento.
      - Oi, Amy! Como vo as coisas?
      - Oi, Ronny! replicou a garota, olhando para Selena.
      - Ol! falou Selena.
      - Bom, gente, disse Ronny, entendendo a situao, vou dar o fora!
      - Precisa no, interveio Amy. Pode ficar. Se for por minha causa, no precisa ir embora, no. Vim aqui s pra lhe dizer, Selena, que esqueci que tinha de sair 
agora.
      A garota sentiu o corao apertado.
      - E mais tarde?  noite? indagou.
      - Hoje  noite vou trabalhar e depois tenho muito dever da escola pra fazer.
      - Quando  que voc vai poder ento? insistiu Selena. Preciso muito conversar com voc.
      Amy passou a mo no cabelo castanho anelado, procurando ajeit-lo.
      - No sei, respondeu, sorrindo para Ronny e evitando fitar a amiga diretamente. 'T bom. Tenho de ir embora. Tchau, gente.
      E saiu apressada. Selena acompanhou com o olhar a colega que desceu o corredor praticamente correndo, saiu pela porta de folha dupla que dava para o estacionamento 
e se foi. A garota se viu dominada por um forte sentimento de apreenso e desalento. Ronny compreendeu o que se passava.
      - Olhe, Selena, disse ele, inclinando-se para fit-la, no fique se condenando. Voc fez tudo o que podia. D mais um tempo.
      - Mais um tempo? repetiu ela. Por que ser que a gente tem de dar mais um tempo a tudo na vida? Estou cansada de esperar! Por que nossos relacionamentos no 
podem ser mais descomplicados, sem essa... essa... o qu?
      - Vida, concluiu o rapaz com ar srio. Isso  da vida, Selena. No  igual nos livros, ?
      - Pois no estou gostando nada disso! exclamou a garota, fazendo  uma careta. Por que ela no quer conversar comigo?
      Ronny deu de ombros.
      - Isso me da uma frustrao! desabafou Selena.
      - , deve dar mesmo, concordou o rapaz.
      Selena suspirou e ajeitou a mochila no ombro.
      - Vamos, disse Ronny, puxando-a pela manga da blusa. Vamos comer tacos* e tomar leite. Eu pago. Assim voc vai se reanimar um pouco.
      ___________________
      *Tacos: uma comida tpica mexicana, constituda de uma espcie de panqueca, recheada com carne moda, alface picada, queijo picado ou ralado e outros ingredientes. 
(N. da T.)
      
      Selena puxou o brao.
      - Mas s tacos e leite, n?
      - 'T bom, concordou ele e comentou: Voc  a nica pessoa que conheo que toma leite, em vez de refrigerante, quando come tacos.
      - E o que tem isso? resmungou ela.
      Ronny se ps a caminhar  frente dela, saindo do prdio da escola.
      - E pode deixar que eu pago, repetiu ele.
      - Em que carro? falou a garota, quando chegaram ao estacionamento.
      - No meu, disse Ronny. A caminhonete est logo ali.
      Quando j se dirigiam para a lanchonete Lotsa Tacos, que ficava a duas quadras dali, Ronny indagou:
      - A Prof.a Charlotte deu pra vocs a mesma tarefa que deu pra minha turma?
      - Ela mandou fazer anlise literria de uma obra de um escritor americano. Voc pegou um dos livros que ela ps  disposio?
      - No, replicou ele. Voc pegou?
      - Peguei.
      - Ser que ela acharia ruim se eu fizesse do mesmo autor que voc? quis saber o rapaz.
      - Creio que no. Estou pensando em fazer meu trabalho hoje  noite. Ento posso passar o livro pra voc amanh. Mas tem de devolv-lo at sexta-feira, viu? 
Est no meu nome.
      Resolveram entrar na lanchonete em vez de utilizar o sistema drive thru. * Selena levou consigo a mochila e, enquanto Ronny fazia o pedido, retirou o livro 
de Emily Dickinson. Leu rapidamente o prefcio e em seguida ps-se a folhe-lo. Teve um sentimento do satisfao ao constatar que os poemas eram todos bem curtos.
      ___________________
      *Drive thru: um sistema de comrcio pelo qual o cliente compra sem sair do carro. Ele para o veculo junto a um guich onde faz o pedido. Em seguida, passa 
a outro guich, onde paga. Afinal, recebe a compra em um terceiro guich. (N. da T.)
      
      Ronny voltou trazendo os tacos, um copo de refrigerante tamanho grande e uma caixinha de leite de 250ml.
      - Ei, voc no almoou, no? quis saber Selena.
      - Almocei. Por qu?
      - Deixe pra l.
      Ronny sentou-se.
      -  esse o livro do trabalho de literatura? indagou, apontando para o volume.
      - , replicou a garota, erguendo-o e mostrando-o ao colega.  uma coletnea de poesias de Emily Dickinson.
      - Poesia? repetiu ele. Pensei que tnhamos de ler contos, ou algo assim.
      - Poesia  melhor do que conto, explicou Selena. Um poema  uma idia apresentada numa "embalagem" pequena, belamente ornamentada.
      - Esplndido! exclamou o rapaz em tom irnico, batendo o canudinho na mesa para rasgar o invlucro de papel. Sempre sonhei em fazer uma anlise literria de 
uma idia apresentada em embalagem pequena!
      - Ei! No fale assim! protestou a garota, saindo em defesa da poetisa. E as msicas que vocs compem? O que so? A letra de uma msica  como uma pequena 
poesia.
      - Hummmm, fez Ronny.
      - Hummm, o qu?
      - Isso mesmo, hummm. No sei se concordo bem com voc.
      - Espere a. Vou ler uma pra voc. Talvez fique mais inspirado.
      - Inspirado?
      - . Olhe o que diz aqui. "Emily Dickinson escreveu mais de 1.700 poemas, mas publicou apenas dez em vida. O primeiro volume de versos dela s saiu impresso 
depois de sua morte."
      - E quando foi que ela morreu?
      Selena correu os olhos pela introduo.
      - Aqui no diz. S diz que ela nasceu em 1830.
      Selena sentiu uma emoo diferente, ao pensar que iria ler palavras que haviam sido escritas mais de cem anos atrs. E a mulher que as escrevera nem sabia 
que um dia iria se tornar famosa.
      - Olhe, disse ela, apoiando-se na mesa, vou ler um aqui pra voc.
      
Numa terra, que nunca vi,
Esto os Alpes imortais, dizem.
O "chapu" deles toca o firmamento,
Os ps, a aldeia embaixo.
Perto desses ps eternos,
Brincam mirades de margaridinhas.
Qual delas, senhor,  voc? Qual sou eu?
Neste dia de agosto?
      
      - O que ela quer dizer com isso? quis saber Ronny, mastigando um pedao de taco.
      Selena sentia o corao bater forte, cheio de contentamento. Ela j experimentara a emoo de contemplar os "Alpes imortais", cujo "chapu" toca o cu e cujos 
"ps" esto na aldeia embaixo. E num dia de agosto, ela estivera l, numa colina cheia de margaridinhas. E at fizera um piquenique ali. O "senhor" do seu potico 
passeio era Alex. E, como Emily, ela tambm fizera algumas perguntas sobre o papel deles na vida.
      Olhou pela janela, fitando o claro cu de outono. Naquele momento, parecia completamente alheia ao ronco dos motores dos carros parados no sinal ali perto. 
Em agosto, ela abrira o corao para Alex. Abrira s um pouquinho, mas fora uma experincia maravilhosa. Sentia at que crescera emocionalmente.
      De repente, compreendeu que no errara em ter aberto o corao para Paul, nas duas cartas que lhe escrevera. Mesmo que ele nunca as respondesse, agora reconhecia 
que havia "crescido", pelo fato de hav-las escrito. E talvez at tivesse podido ajudar o Paul tambm. E era isso que queria. Era possvel que, em certos relacionamentos, 
algumas perguntas nunca fossem respondidas.
      E, quem sabe, nem precisassem mesmo de respostas.
      

Captulo Sete
      
      - Oi, Selena! chamou Ronny, passando a mo diante do rosto dela e tapando-lhe a viso do cu. Com isso, ela voltou  realidade, dando-se conta de que estava 
na barulhenta lanchonete. 
      - "Onde" voc estava? indagou o rapaz.
      A garota sorriu, mas no respondeu.
      - Posso ler outra poesia da Emily pra voc? perguntou.
      - Depende, replicou ele. Vai "viajar" de novo?
      - No sei, respondeu. Vamos arriscar?
      Virou a pgina e leu:
        
 assim que leio uma carta.
Primeiro, tranco a porta.
Depois giro a maaneta
Para ver se est bem fechada.

Em seguida, vou para o canto mais afastado
Para no ouvir ningum bater.
Por fim, tiro minha cartinha do envelope
E devagarinho espio pela fechadura dela.                
      
      E a poesia continuava, mas Ronny a interrompeu. Agora era ele que estava olhando para fora, parecendo ter sido levado para outro mundo.
      - Olha s! exclamou ele.  o novo diesel turbo 780! Aquele preto ali! Faz pouco tempo que saiu.  o primeiro que vejo.
      Selena virou a cabea e olhou para a fileira de carros na rua. No tinha a menor idia de qual veculo ele estava falando. E tambm nem queria ter. Estava 
mais interessada em ler os pensamentos daquela mulher que sabia o que era esperar uma carta e depois ir fechar-se no quarto para "espiar pela fechadura" dela e "sabore-la" 
sozinha. Esse pensamento fez com que sorrisse.
      - Vai comer isso a? indagou Ronny, apontando para o tacos em que ela nem tocara.
      - No, replicou. Pode ficar pra voc, respondeu, voltando a ateno para o livro e lendo o resto do poema s para si.
      O rapaz devorou o lanche.
      - Sabe o que mais? perguntou ela depois de alguns instantes. Mudei de idia. No vou lhe emprestar este livro, no. Quero ficar mais um tempo com ele.
      - Voc entende mesmo o que ela est dizendo ai? quis saber ele.
      - Tudo, no. Mas h umas partes dele que se aplicam a fatos que me dizem respeito.
      Ronny amassou os papis dos invlucros dos tacos e levou tudo para a lixeira, sem fazer nenhum comentrio. Selena atrs dele, carregando sua caixinha de leite, 
do qual tomara muito pouco.
      - Amanh eu pego outro livro, disse o rapaz. Pode ficar com essa Emma s pra voc.
      - Emily, corrigiu a garota.
      - Como queira! replicou ele.
      Eles entraram na caminhonete e voltaram ao estacionamento da escola. Rodando de volta para casa, Selena ia pensando nos poemas. Iria tentar ler o restante 
do livro agora  noite e comear o trabalho de literatura. Seria bom se j se adiantasse um pouco nesse semestre. Contudo estava to fascinada pelas trs poesias 
que lera, que queria "degustar" lentamente os outros poemas, antes de iniciar a anlise literria.
      Estacionou em frente de casa e foi direto  caixa do correio pegar a correspondncia, um hbito que cultivara ultimamente. Abriu a portinhola de tela e dirigiu-se 
para a cozinha, colocando tudo sobre o balco.
      - Oi, pessoal! gritou. Cheguei!
      - Estou aqui embaixo, respondeu a me, que se achava no poro.
      A garota examinou rapidamente a correspondncia que acabara de pegar. Havia algumas contas, impressos publicitrios, uma carta para V May e mais dois envelopes.
      Aqui ela parou, de flego suspenso. Os dois estavam endereados a ela, em tinta preta, numa caligrafia grande que ela conhecia bem. Os selos traziam o perfil 
da rainha da Inglaterra e estavam carimbados com a data de 12 de setembro. Olhou o remetente. Era o nome que, nos meses anteriores, ela sussurrara muitas vezes em 
suas oraes: Paul Mackenzie.
      Ento ele no me esqueceu, pensou. Ps estas cartas no correio mais de uma semana atrs. Ah, ento o Paul tambm esteve pensando em mim.
      Seu corao batia apressado, lembrando uma borboleta apanhada numa rede. E no conseguia parar de sorrir. No havia ningum por perto. Ento pegou as duas 
cartas e foi andando de mansinho para o escritrio, dirigindo-se para sua poltrona predileta.
      Entrou e trancou a porta, como no poema que lera instantes atrs. Puxou a cadeira para perto da porta de vidro, atravs da qual o Sol outonal derramava sua 
luz maravilhosa. E ali, ao brilho daquele claro suave, sentou-se, segurando uma carta em cada mo.
      Qual delas abro primeiro? Talvez ele tenha posto a data na carta.
      Rasgando o envelope, Selena abriu uma delas. Tinha uma pgina s. Era um papel bem fino e delicado, que fez um barulhinho caracterstico quando ela o desdobrou. 
Olhou aquela letra grande que j conhecia to bem. A data marcada era 7 de setembro.
      Selena no sabia se teria coragem de deixar de ler essa e abrir a outra. Contudo teria mais sentido l-las na ordem em que tinham sido escritas. Abriu a segunda 
rapidamente. Tinha trs folhas, e a data era de 10 de setembro.
      Apertou os lbios um contra o outro e voltou  primeira carta.
      
      Prezada Selena,
      Ainda no recebi a resposta da carta que lhe escrevi e entendo que voc pode at nem responder. Como disse em minha ultima carta, se voc no quiser se corresponder 
comigo, entenderei perfeitamente.
      - Ele no recebeu minhas cartas! exclamou ela, erguendo os olhos e fitando os cisquinhos de poeira que "danavam" no feixe de luz que entrava pela vidraa.
      Continuou a ler.
      
      Eu ainda queria lhe dizer mais uma coisa e depois no a incomodarei mais. Uns meses atrs, quando estvamos no avio, voc falou algo que nunca mais esqueci. 
E quero lhe dizer isso. Voc me perguntou como eu me sentia com a morte do meu av. Voc foi a nica pessoa que me fez essa pergunta. Muita gente me disse como "eu 
devia me sentir". E ainda fazem isso. Muitos me dizem: "Ah, isso passa. Depois voc supera isso". Outros comentam: "Voc devia ter orgulho de ser neto desse homem". 
      Selena, voc foi a nica que perguntou o que eu sentia. Quero agradecer muito. Aquilo me deu tranqilidade para sentir o que preciso sentir.
      Que a paz de Cristo esteja com voc,
      Paul
      
      Selena dobrou a carta e em seguida, meio ansiosa, pegou a outra.
      
      Oi, minha rainha dos lrios!
      
      A garota aproximou a folha do prprio peito e, erguendo os olhos para o teto, mordeu o lbio inferior, reprimindo a vontade de dar uma risadinha.
      - "Oi, minha rainha dos lirios!" repetiu em voz alta.
      Lembrou-se da ocasio em que estava andando na rua, debaixo de chuva, carregando um buqu de lrios amarelos, e ele a avistara ali. Depois fizera uma pequena 
gozao dela. Agora, porm, o "ttulo"que ele lhe dera tinha um "sabor" diferente, bem mais doce.
      
      J li e reli suas duas maravilhosas cartas umas dez vezes; e ainda continuo rindo delas. Voc tem um jeito to gostoso de escrever! Tive a impresso de que 
estava "vendo" os casos que me contou. "Vi" seu pai levando-a ao restaurante, onde seus amigos trabalham, e ali lhe dando a aliana do compromisso de pureza. "Enxerguei" 
direitinho o Douglas amarrado naquela balsa da Ilha Balboa e at a sua viagem  Sua.
      Ri s gargalhadas quando contou que voc e sua amiga derrubaram uma estante de cartes na lojinha elegante de Basilia. E sei exatamente como ela . Aqui tem 
uma casa de ch, aonde minha av vai toda quarta e sbado, para lanchar com umas amigas. Logo que cheguei aqui, um dia ela me levou a essa confeitria. Acredito 
que a inteno dela era me "exibir" para as outras senhoras do lugar, para elas verem se eu poderia ser um bom candidato a marido das netas delas. Sentamos a uma 
mesinha prxima da janela. Assim que o garom serviu o ch com os pezinhos, tivemos um pequeno "acidente". Sem querer, dei um chute na perna da mesa, que alis 
 bem velha, e tudo caiu no cho: o bul de ch, as xcaras e a toalha!
      
      Selena no pde conter uma risada. Inclinou a cabea para trs e soltou uma boa gargalhada. Estava praticamente "enxergando" a cena. Sabia como eram essas 
casas de ch,  que certa vez, quando estava na Irlanda, fora lanchar numa delas. E sabia como aquelas mulheres inglesas levavam a srio a "hora do ch", que para 
elas deve ser cercado de muita elegncia e tranquilidade. Coitado do Paul! Que vergonha ele deve ter sentido!
      
      As aulas da faculdade iniciaram-se j h vrias semanas. Minha vida atualmente s consiste em estudar, estudar e estudar. Talvez seja por isso que gostei tanto 
de suas cartinhas alegres.
      E voc? Como foi na primeira semana de aula? Voc contou que estava tendo um problema com sua amiga Amy. E a? J resolveu?
      No ano passado, eu tinha muitos amigos na escola. Sempre havia algum com quem se podia sair. Aqui, porm, tenho poucos colegas que so amigos. No sei se o 
problema  comigo ou com eles. A verdade  que no ano passado, no tive muitos amigos que, como se diz, eram "boa companhia". E aqui ainda no conheci ningum que 
tenha os mesmos valores que agora assumi. Ento fico sozinho a maior parte do tempo, em vez de ir para os barzinhos com os colegas. Alis, isso est sendo bom para 
mim. At o momento, tenho tirado s notas boas. Nos finais de semana, geralmente, vou para a casa da minha av, onde fao uns pequenos servios aqui e ali.
      J lhe falei da casa de minha av?  uma residncia muito antiga, do tipo chal. O alicerce dela tem mais de duzentos anos. Mas a estrutura j foi remodelada 
uma poro de vezes. Os melhoramentos mais recentes datam de quatro anos atrs. Minha av possui um forno de microondas e j instalou uma fornalha  lenha, que aquece 
a casa toda. Mas no quer nem ouvir falar em lavadora de pratos nem triturador de lixo. O terreno da propriedade  grande, mas cheio de morros e com muitas pedras. 
Pertence  nossa famlia h vrias geraes. Antigamente, eles criavam ovelhas aqui. Agora no criam mais. Minha av conserva apenas uma cadela da raa collie, chamada 
"Laddie". Tem ainda um jardim e uma horta, que neste vero no deu muita coisa, pois fez calor demais.
      Estou escrevendo no trem, indo para a casa de minha av. Vou descer na prxima estao, ento tenho de concluir esta carta. J estou esperado ansiosamente 
sua prxima correspondncia. Talvez at j tenha uma l no chal  minha espera. Por favor, conte-me tudo que est acontecendo a em Portland. As chuvas de outono 
j comearam? Ou o Sol ainda est quente e o cu com aquele tom azul brilhante que ele tem quando as folhas das rvores comeam a amarelar? Aqui tem chovido muito 
pouco, e todo mundo est desejando a estao chuvosa.
      Ento, um abrao para voc, Selena. Estou orando por voc. Que a paz de Cristo reine em seu corao.
      Paul
      
      Selena baixou no colo as mos com a carta, sentindo as batidas do corao irem se acalmando. A luz do Sol "brincava" na vidraa da porta de folha dupla, aquecendo 
seus braos do mesmo modo que a carta de Paul aquecera seu corao. Sua vontade era ficar parada ali naquela cadeira, imvel. No queria deixar escapar aquela sensao 
maravilhosa. Nunca.
      

Captulo Oito
      
      Sentada no silncio de seu quarto, Selena deu uma "espiada pela fechadura" das maravilhosas cartas de Paul. J devia ser a dcima vez que fazia isso, desde 
que as recebera, dias atrs. Depois de rel-las, orou pelo rapaz, como fizera muitas vezes. Pediu a Deus que endireitasse mesmo o caminho de Paul, e que este tivesse 
um corao aberto ao Senhor, para aprender tudo que Deus quisesse lhe ensinar. Sentiu um grande conforto em lembrar que, embora estivessem muito distantes um do 
outro, estavam prximos em esprito. Paul estava orando por ela. Dissera isso numa das cartas.
      Escrevera-lhe na segunda-feira mesmo, quando as recebera. Levara trs horas para elaborar uma resposta que a satisfizesse. Enviara para ele seu email, com 
a sugesto de que se correspedessem pelo correio eletrnico, que seria bem mais rpido. Na tera-feira, aps as aulas, passara no correio e mandara a cartinha por 
via area. Agora tinha de ficar aguardando a resposta. E como isso era difcil! Se pudessem se corresponder pelo e-mail, poderiam realizar bate-papos on line, respondendo 
um ao outro no mesmo dia.
      J era quase quarta-feira  noite, e ela acabara de chegar do estudo bblico dos jovens, que havia na igreja. Subiu direto para o quarto, onde fechou a porta 
e releu as cartas, totalmente a ss. A caligrafia de Paul tinha caractersticas bem firmes e definidas. Cada letra, escita em tinta negra, se destacava claramente 
no papel fino. Selena notou que ele cortava o t, fazendo um risco de baixo para cima. Isso dava ao conjunto um ar de otimismo. As cartas pareciam refletir a personalidade 
do rapaz, que a garota estava comeando a conhecer: contemplativa, porm cheia de esperana.
      - Selena! chamou a me do lado de fora da porta. Est muito ocupada?
      - No, me. Entre!
      Sharon Jensen entrou e se sentou na beirada da cama de Tnia. Metade do leito estava tomado com um monte de roupas que Selena lavara na segunda-feira, mas 
ainda no dobrara.
      - Acabei de conversar com a Tnia, disse a me.
      Selena fez um aceno afirmativo, esperando que ela continuasse. Antes de ela entrar, a garota havia dobrado as cartas de Paul e guardado debaixo do travesseiro. 
Alis, era a que as mantinha desde o dia em que as recebera.
      - Ela resolveu escrever uma carta pra me biolgica e esperar a resposta dela. Tnia pediu pra eu lhe contar o que havia decidido.
      Selena acenou de novo. Estava tentando "sentir", pelo semplanite da me, como esta recebia aquilo. Aparentemente estava calma.
      - Como  que voc est se sentindo com tudo isso? Indagou afinal.
      Parecia-lhe estranho conversar com a me de igual para igual, perguntando-lhe o que sentia.
      - Pra ser sincera, no comeo, fiquei muito chateada.  que, nessas situaes, podem acontecer muitos fatos desagradveis. Uma ou a outra pode dizer algo negativo, 
coisas que a gente nunca mais esquece. E a Tnia  muito sensvel. Estava com medo de que ela sasse "machucada" dessa experincia, ficando com uma terrvel "cicatriz" 
emocional.
      -  como se aventurar a entrar numa terra desconhecida, comentou Selena.
      - Mas agora, quanto mais converso com ela e com seu pai sobre o assunto, mais me conveno de que ela est agindo certo. Vai dar um passo acertado. Acho que 
escrever pra Lina foi uma tima idia.
      - Tambm acho, concordou Selena, apoiando o cotovelo no travesseiro e pensando no "tesouro" que se achava "escondido" embaixo dele. Na carta, ela pode comunicar 
muito do que pensa e sente, no ? Quero dizer, a gente pode ler e reler uma carta diversas vezes e demorar pra responder.
      - Isso mesmo, replicou a me. Espero que Tnia esteja preparada para a possibilidade de a outra nunca responder, se isso acontecer.
      Aqui ela se inclinou e deu um tapinha de leve na perna da filha.
      - O mais dificil pra mim, nisso tudo, continuou,  saber qua vocs duas j tem idade pra tomar essas decises importantes pra vida.
      - , interveio Selena, e ns duas estamos descobrindo que os relacionamentos humanos s vezes podem ser muito complicados; e que nem sempre h solues rpidas 
para os problemas.
      - Ah, . E por falar nisso, como est seu problema com a Amy?
      Selena abanou a cabea.
      - Tenho a sensao de que nunca vou conseguir conversar com ela, explicou.
      Em seguida, contou  me o que acontecera na escola, n segunda-feira, quando Amy dera a entender que no queria conversar nada com ela.
      - Estou me sentindo pssima, disse. Voc j perdeu uma amiga asim, me?
      A me pensou uns instantes.
      - J, respondeu meio hesitante. Isso j me aconteceu vrias vezes. A questo  que a gente muda. As amizades mudam. Quando viemos morar em Portland, por exemplo, 
resolvi dar um rumo diferente a uma amizade que eu tinha antes. Acho que, no meu caso, fui a "Amy" da histria. Eu simplesmente no tinha tempo nem energias para 
continuar o relacionamento com essa amiga, da maneira como ela queria. Minha vida aqui  muito cheia e, de certo modo, estou mais ocupada do que antes. E com isso, 
acho que acabei magoando-a.
      Selena pensou se no seria isso que estava se passando com Amy. Como ela se achava muito envolvida no namoro, no tinha mais tempo nem condies para manter 
a amizade com Selena.
      Quando a garota foi se deitar naquela noite, ficou pensando em Amy e no trmino da amizade delas. O que a incomodava no era o fato de a colega ter um namorado, 
mas o modo como o relacionamento delas se rompera. Nesse momento, Selena compreendeu que a viso que ela tinha de um namoro era muito diferente da de sua amiga. 
Seus valores eram diversos. Selena elaborara uma espcie de "credo pessoal", esboando o modo como deseja viver. O problema fora que ela supusera que Amy tambm 
tinha as mesmas idias. Achara que a amiga s iria namorar um rapaz que fosse crente mesmo, e que ela tomara a deciso de permanecer fsica e moralmente pura. Ao 
que parecia, porm, no era esse o pensamento da colega.
      Antes de adormecer, ela teve uma idia. Quem sabe deveria escrever para a Amy? As cartas que recebera de Paul tinham sido to gratificantes para ela! Tnia 
tambm resolvera escrever para, a me biolgica. Se lhe escrevesse um bilhete, talvez conseguisse atingir seu objetivo de fazer as pazes com ela, mesmo que a amizade 
no voltasse a ser como era antes. Entendeu porm, que teria de escolher com muito cuidado o que iria dizer. E deitada ali no silncio do quarto s escuras, Selena 
se ps a estudar as palavras que diria a amiga. Analisava uma por uma cuidadosamente, como se estivesse fazendo um joguinho de palavras cruzadas.
      Na quinta-feira de manh, assim que acordou, lembrou-se de que havia sonhado com a carta. No sonho, ela tinha escrito para Amy, com muito cuidado, e entregara 
as folhas para a amiga. Imediatamente, porm, a colega atirara tudo na lata de lixo, sem nem mesmo as ler. E embora o sonho a tivesse deixado com uma sensao de 
desassossego, continuou achando que era uma boa idia escrever para Amy. Precisava apenas decidir o que iria dizer na carta e como diz-lo.
      Nesse dia, no teria tempo para por seu plano em prtica, pois aps as aulas iria trabalhar. Depois iria para a Highland House, onde ajudava a servir o jantar 
para os "sem-teto" que ali compareciam. Quando afinal chegou em casa j passava de 8:00h da noite. Foi direto para o escritrio e ligou o computador do pai. Entrou 
no programa do e-mail, para ver se havia chegado alguma mensagem de Paul, caso ele tivesse recebido sua carta. No havia nada para ela.
      Abriu em outro programa para redigir a carta para Amy e se ps a rascunh-la.
      "Prezada Amy,
      Quero dizer-lhe que estou muito sentida de nossa amizade estar meio parada..."
      No, assim no estava legal. Apagou a frase e tentou de novo. Continuou refazendo a sentena, procurando expressar o que sentia, mas sem dar um tom agressivo. 
Compreendeu que escrever essa carta seria bem mais dificil do que imaginara a princpio. A certa altura, os pais dela foram ao aposento para lhe dar boa-noite, pois 
iam dormir.
      - Ligou uma garota pra voc, quando estava trabalhando, Disse-lhe a me. Chama-se Vicki. Deixei o recado e o nmero do telefone dela em cima da sua cama.
      - Obrigada, me!
      O pai deu uma olhada para o computador.
      - Est fazendo o trabalho escolar? indagou ele.
      - Daqui a pouco, explicou ela. Primeiro estou resolvendo outro problema.
      - 'T bom. Ento no se esquea de desligar tudo quando for dormir, concluiu ele, colocando a mo no ombro dela e dando-lhe um beijinho no alto da cabea.
      - O.k.! replicou Selena.
      No estava gostando muito das palavras que colocara na tela. Davam a impresso de um ultimato. Ser que Amy tambm acharia assim? E se ela se esforasse ao 
mximo e escolhesse com todo cuidado as palavras que iria escrever, achando que estavam timas, mas Amy no pensasse o mesmo?
      Afinal resolveu "salvar" o rascunho que fizera. Abriu um arquivo com o nome "Amy" e deixou a carta nele. Em seguida, abriu a mochila. O primeiro objeto que 
viu nela foi o livro de Emily Dickinson.
      - Ah, no! exclamou com um gemido.
      Havia se esquecido totalmente do trabalho que teria de fazer para o dia seguinte. Deu uma olhada rpida para o relgio, abanando a cabea.
      No quero nem acreditar que estou fazendo exatamente o que a Prof. Charlotte disse para no fazermos! S vim pegar no trabalho s 10:00h da noite, na quinta-feira!
      Como Selena nunca tivera muita dificuldade com os trabalhos de casa, sempre conseguira tirar boas notas, mesmo sem se esforar muito. Agora, porm, como estava 
iniciando o ltimo ano, queria tirar s notas altas. No estava gostando nem um pouco de fazer aquela anlise literria assim, na ltima hora. Obviamente, desse 
modo, no estaria comeando nada bem nessa matria.
      No dia seguinte, quando entregou o trabalho, perguntou  Prof. Charlotte se poderia fazer outro, para melhorar a nota. Esta olhou-a com ar srio.
      - No, respondeu. Sinto muito, mas agora s no proximo trabalho.
      Essa professora no  de dar muita "colher de ch", no, pensou a garota, procurando fixar isso na memria.  melhor fazer os trabalhos dessa matria imediatamente.
      Encerrada a aula, Selena foi devolver o livro  mesa que ficava no fundo da sala. Vicki aproximou-se, ps-se ao seu lado e ficou aguardando que Selena a olhasse.
      - Oi! disse a colega.
      - Oi! respondeu Selena.
      - Liguei pra voc ontem, mas estava trabalhando. Queria saber se voc gostaria de fazer algo hoje  noite.
      Selena fitou a outra direto nos olhos. Teve vontade de indagar "Por que?", mas conteve-se e sorriu.
      - Pensei que talvez a gente pudesse ir lanchar em algum lugar ou assistir a um filme, prosseguiu Vicki. Mas no sabia se voc j tinha algum compromisso pra 
hoje.
      - No.
      - Ento o que gostaria de fazer? indagou a outra com um sorriso.
      Selena deu de ombros.
      - Bom, principiou e, de repente, sem mais nem menos, disse: D uma chegada l em casa!
      

Captulo Nove
      
      - Quem  que vai vir aqui? indagou Sharon Jensen  noitinha.
      Selena estava sentada no cho da saleta, examinando a gaveta do mvel onde se achavam as fitas de vdeo da famlia.
      - Vicki Navarone, replicou sem olhar para a me. Ela estuda l na minha escola. Ser que eu nunca falei nada sobre ela? No semestre passado, quando eu e o 
Ronny fizemos aquele trabalho na Highland House, ela tambm foi.
      - , interveio a me. Eu me lembro de voc ter falado sobre ela, mas no me recordo de ter dito que tinha amizade com ela.
      Selena ergueu o rosto.
      - E no tinha, no, explicou, voltando a olhar para as fitas. Achei que a Tnia havia colocado tudo em ordem alfabtica.
      - Ela colocou, quando estava aqui. Mas acho que ningum continuou mantendo as fitas em ordem.
      Nesse instante, a campainha da porta tocou. A garota levantou-se de um salto para ir atender.
      - Deve ser a Vicki, comentou. Me, a gente pode mesmo assistir a um filme aqui? A senhora no deixa os meninos virem incomodar a gente, no, 't?
      - O Kevin est na casa do Jason, e vou segurar o Dilton l em cima. Divirtam-se!
      Selena se sentia um pouco apreensiva ao abrir a porta. Nunca poderia ter imaginado que a Vicki estaria sem uma atividade social, numa sexta-feira  noite, 
e muito menos que quisesse vir  sua casa nesse dia.
      - Oi! disse, saudando a colega. Entre, Vicki! Eu estava dando uma olhada nessas fitas de vdeo para ver se achava um filme interessante.
      - timo! comentou Vicki. Sabe, adorei sua casa! Aquele balano ali na varanda  uma graa!
      A garota estava vestida com um short e um bluso de moletom, onde se via o nome "Georgetown". Seu cabelo longo e sedoso estava firmado num prendedor. Parecia 
que ela no passara nenhum tipo de maquiagem.
      - Na verdade, esta casa  da minha av, explicou Selena, enquanto a outra entrava e examinava os detalhes da sala com ar de admirao. E ela mora conosco, 
quero dizer, ns moramos com ela. s vezes, ela fica com a mente um pouco confusa. Ento no se assuste se ela chegar aqui e comear a dizer ou a fazer coisas meio 
sem sentido, o.k.?
      Vicki fez que sim. As duas foram para a saleta, onde Selena se ps a ler os nomes de alguns filmes.
      - timo! disse a colega, ouvindo Selena ler os ttulos. Esse a  muito bom! Gosto muito dele. Na primeira vez a que o assisti, chorei feito boba!
      De repente, Selena parou. Tudo aquilo estava muito estranho para ela. Ento resolveu fazer uma pergunta franca para a colega. E, sem parar para pensar, falou:
      - Vicki, quero lhe fazer uma pergunta. Por que voc decidiu vir aqui? Quero dizer, por que quis vir  minha casa, sentar aqui e assistir a um filme? Sei muito 
bem que voc poderia agora estar com outras pessoas, e que tem uma vida social mais intensa do que a minha.
      O rosto da outra avermelhou-se.
      - Exatamente, o que e que voc est querendo? concluiu Selena.
      - Quero fazer amizade com voc, explicou Vicki.
      - Por qu?
      - Porque eu...
      -  o seguinte, principiou Selena, interrompendo-a para explicar por que tinha sido to franca. No ano passado, a gente no se deu muito bem!
      - , eu sei, concordou Vicki.
      - Ento o que foi que mudou?
      - Eu, replicou a outra sem pestanejar. Tem algum tempo que quero lhe dizer algo...
      Selena sentou-se e voltou toda a ateno para a colega.
      - Nessas frias, fui a um acampamento da igreja e entreguei minha vida a Cristo. Sempre frequentei a igreja, mas nunca havia entendido que precisava entregar 
a vida para Deus e buscar um relacionamento com ele. Agora, sou crente, Selena.
      -  mesmo? Que maravilha!
      Selena teve vontade de se levantar e dar um abrao nela, mas achou que ficaria meio sem jeito. Vicki sorriu e continuou:
      - E d pra perceber que o Senhor j comeou a operar em mim, Selena. Ele est me mudando. Por dentro,  claro. No quero mais sair com o pessoal com quem eu 
saa antes. No quero mais essa vida de s ficar indo a festas. Quero viver para Deus e aprender mais. Foi por isso que tive vontade de participar da sua turma.
      - Minha turma? indagou a garota, contendo um pouco a alegria que sentia brotar no corao. Eu no tenho uma turma, exatamente.
      - , mas sei que voc, o Ronny, o Tre e outros caras da banda do Ronny so cristos de verdade, e  assim que quero ser.
      Selena abaixou a cabea e ficou a aban-la lentamente. Momentos antes sentira intenso gozo. Agora tinha um n na garganta.
      - Vicki, disse ela, sinto muito.
      - Por qu?
      - Eu nunca dei bom testemunho disso que voc disse, isto , que sou uma "crist de verdade". Quero dizer, sou crente e tudo, e penso o mesmo que voc. Desejo 
crescer e aprofundar meu relacionamento com Deus. Mas nunca a tratei como devia, isto , como uma crente deveria trat-la. Me desculpe, Vicki.
      - Ah, no precisa ficar sentida no, replicou a outra, aproximando-se de Selena e dando-lhe um leve aperto no brao. Eu tambm nunca a tratei bem, mas percebia 
que voc tinha algo diferente. Agia como se confiasse em Algum mais poderoso. E eu queria ser assim.
      - , mas ainda tenho muito que crescer, falou Selena, abanando a cabea.
      - E eu tambm.
      Nesse momento, um agradvel silncio envolveu as duas.
      - Eu pensei que, quem sabe, poderamos fazer esse "percurso", esse crescimento, juntas, props Vicki.
      Selena sorriu. A colega tambm. Parecia que naquele instante a amizade que se iniciava fora selada por toda a eternidade.
      - Voc ainda quer assistir a um filme? indagou Selena, apontando para as fitas que estavam no cho.
      - Voc decide! respondeu a outra.
      - Prefiro conversar, disse Selena, erguendo-se do cho e acomodando-se no sof,  frente da colega.
      Ps os ps sobre a cadeira e sentou em cima deles.
      - Como foi de frias? indagou. Fale sobre o acampamento e tudo o mais.
      - E eu tambm quero que me conte sobre suas frias, interps Vicki. Fiquei sabendo que foi  Euopa.
      -  Sua, corrigiu Selena, achando que dizer que fora  "Europa" era um pouco de exagero. Bom, e  Alemanha tambm. Mas foi apenas uma semana.
      - Mesmo assim! exclamou a colega, arregalando um pouco os  olhos. Sempre tive vontade de ir  Europa, a qualquer lugar de l. Comprou muita coisa legal?
      Selena riu.
      - Nada! replicou. Voc acredita? Trouxe s um pacote de ch.
      -  mesmo? Adoro ch!
      - Ah, ento vamos pra cozinha fazer um pouco.
      E as duas ficaram a rir e conversar tomando ch, como se j tivessem feito isso centenas de vezes. A certa altura o telefone tocou. No quarto toque, como ningum 
houvesse atendido, Selena pegou o fone.
      - Oi, Selena! disse uma voz de homem.
      Ao fundo a garota ouvia barulho de vasilhas e panelas.
      - Ronny?
      - ! Selena, o que voc vai fazer amanh de manh?
      - Vou trabalhar.
      - Mas a que horas vai pegar servio?
      - s dez. Por qu?
      - Estou precisando de um favor seu. Tenho de estar aqui no restaurante amanh s 10:30h e ainda no arranjei ningum pra cortar os gramados. Queria que voc 
trabalhasse pra mim de 7:30h at 9:30h; eu lhe pago. Que tal?
      - Que nada, Ronny. Voc no precisa me pagar, no. Eu o ajudo, sim. Onde a gente vai se encontrar?
      - Isso depende, respondeu o rapaz meio hesitante.
      Selena virou a cabea ligeiramente e olhou para Vicki, erguendo um pouco as sobrancelhas, com ar de quem diz: 
      "Espera s at voc ouvir essa!"
      - Depende de qu, Ronny? indagou a garota.        
      - Ser que voc pode levar o cortador de grama do seu pai? Se puder, vou querer que faa os gramados a de Hawthorne, e eu fico com os outros. So apenas trs, 
e todos perto de sua casa.
      - Ah, acho que sei quais so, disse ela. Ou pelo menos conheo dois deles.
      Lembrava-se de que vira o Ronny trabalhando na vizinhana e que fora conversar com ele.
      - Ento, continuou,  s voc me dar o endereo certinho e explicar o que  pra fazer, que eu vou l.
      - 'T bom. E fico lhe devendo essa, replicou o rapaz com gratido.
      - Posso cobrar depois?                          
      - Claro, disse ele. Olha, depois que eu largar servio hoje  noite, vou a deixar os endereos e as instrues, o.k.? 
      - E a que horas, mais ou menos? quis saber Selena.
      - Eu largo s 10:00h. Posso deixar um papel com essas informaes na caixa do correio pra voc. Lembre-se de que vai precisar comear s 7:30h, seno o tempo 
no d.
      - Entendi, falou a garota.
      - Bom, ah, e olha aqui, Selena!
      - Fala.
      - Muito obrigado de novo.
      - No me agradea ainda no, Ronny. Voc no sabe se sou capaz de fazer o servio direito, como seus clientes desejam.
      - No esquenta, no. Esses trs gramados so muito simples. Olhe, vai calada de bota, hein?! No tenho seguro de trabalho para os "meus funcionrios", no.
      - Mas vou ter direito a frias, n?
      - , mas no as frias que costuma tirar.
      Nesse momento, Selena ouviu, ao fundo, algum chamar o Ronny.
      - Tenho de trabalhar, disse o rapaz. Ento vou deixar o papel na caixa do correio, viu?
      - 'T bom. Depois a gente se ve ento, concluiu ela, desligando em seguida.
      Vicki fitou-a erguendo as sobrancelhas finas, numa indagao silenciosa. Selena aproximou-se do balco onde a amiga se encontrava e teve uma idia.
      - Vicki, o que voc vai fazer amanh cedinho?
      

Captulo Dez
      
      No dia seguinte, por volta de 7:15h, as du garotas iam caminhando lado a lado, subindo a rua, para cuidar do primeiro gramado de Ronny. Selena empurrava o 
cortador como se fosse um carrinho de beb. Sua esperana era que nenhum vizinho estivesse acordado quela hora para v-la numa atividade to inusitada. Vestia uma 
cala jeans e uma camisa grossa de manga comprida. Calara a velha bota de seu pai e um antigo par de luvas de jardinagem. Amarrara o cabelo, fazendo um rabo-de-cavalo, 
e pusera um bon, deixando o "rabo" sair pela abertura de trs.
      Vicki tinha uma aparncia um pouco mais elegante. Tambm estava com uma cala jeans, mas usava uma camisa de malha de manga curta. Estava de culos escuros 
que, alis, pareciam muito caros. Puxara o cabelo para trs e firmara-o num prendedor, mas deixando-o frouxo. Carregava uma tesoura de jardinagem, de cabo longo, 
um ancinho e um pacote de sacos de lixo de cor preta.
      - Nunca cortei grama na vida, disse Vicki, dando uma risadinha. Ainda no sei por que concordei em vir aqui com voc.
      - Tambm no sei por que resolvi fazer isso para o Ronny, desabafou Selena. Mas acho bom que voc tenha vindo comigo. Assim acabamos mais depressa.
      O que Selena deixou de dizer foi que ela tambm nunca havia aparado um gramado. Em sua casa, quem cuidava do quintal eram o pai e os irmos. Embora houvesse 
ajudado a eles muitas vezes, na realidade, nunca aparara a grama.
      - A primeira e esta aqui, disse, consultando o papel que trazia no bolso.
      Conferiu novamente o endereo e leu em voz alta as instrues que Ronny escrevera ali.
      "Cortar os gramados na frente e nos fundos. Cachorro pequeno no fundo."
      - Ser que isso quer dizer que temos de "aparar" o cachorro tambm? indagou Vicki.
      Selena riu.
      - Espero que no, disse.
      - Vamos comear no da frente ou no dos fundos? perguntou a colega.
      - No da frente, acho. Vou ligar este negcio aqui e a gente vai revezando, o.k.?
      Selena abaixou-se e deu um puxo na corda. Para sua surpresa, o aparelho funcionou imediatamente.
      - timo! exclamou ela em voz baixa, como se houvesse feito isso dezenas de vezes. Vamos l!
      Empurrou o cortador pelo gramado, em direo  escadinha da entrada da casa. Virou-se para voltar, mas achou que ficaria melhor comear do outro lado. Assim 
poderia acompanhar a linha do canteiro. Para mudar o "desenho", resolveu cortar fazendo uma longa diagonal. Em seguida, foi andando paralelamente ao canteiro em 
direo  casa.
      Vicki, que ficara parada na calada, olhando para ela, disparou a rir.
      - Olhe s! gritou ela para superar o barulho do motor. Voc fez o sinal do "Zorro"! e apontou o "Z" desenhado na grama.
      Selena parou para ver o que havia feito. Entrando no esprito do momento, respondeu:
      - Espere a!
      Virou-se e fez outra diagonal, em sentido contrrio  primeira.
      - Agora  uma gravata borboleta! explicou ela, gritando tambm por causa do ronco do motor.
      Vicki riu, apontando para a "obra-prima" da amiga. Nesse instante, a porta da frente se abriu e apareceu uma senhora idosa, usando um robe verde comprido e 
calada de sapato mocassim.
      - O que esto fazendo a? berrou ela.
      Selena abaixou-se para desligar o cortador. O problema era que ela no tinha a mnima idia de como se desligava o aparelho. E o motor continuou a roncar, 
enquanto ela tentava explicar tudo para a mulher que parecia bastante irritada.
      - Estamos substituindo o Ronny! gritou.
      - O qu? indagou, tambm aos berros, a senhora que as olhava com a mo na cintura.
      Ao que parecia, ela nem vira a obra de arte da Selena, a "gravata borboleta".
      - Deixe que eu explico, gritou Vicki, correndo para a entrada.
      Aproximou-se da dona da casa e conversou com ela. Selena continuava remexendo no cortador, sem conseguir deslig-lo, Tentou de tudo, mas no adiantou. Viu 
a mulher gesticulando muito e dizendo algo para a Vicki. Esta voltou apressadamente para junto da amiga, enquanto a mulher permanecia na varanda.
      - Ela disse que o Ronny geralmente corta a grama dela s depois de nove horas. Reclamou que ns a acordamos. Quer que a gente faa o servio s 9:00h.
      - s 9:00h? E como fica a nossa "gravatinha"?
      - Acho que ela nem notou. Se formos embora logo, talvez ela entre tambm e nem veja. No d pra desligar esse negcio barulhento, no?
      Selena abanou a cabea.
      - No sei desligar.
      Vicki fitou-a com expresso de quem no quer acreditar no que est ouvindo.
      - Acho melhor a gente dar o fora logo, disse. A outra casa no fica aqui perto?
      - Fica, mas o que vou fazer com este cortador? Como vou lev-lo at l?
      Vicki deu de ombros. Virou a cabea ligeiramente e olhou para a mulher. Em seguida, deu um alegre aceno, despedindo-se, mostrando que j iam embora.
      - Desligue esse negcio! gritou a senhora.
      - Vamos l! disse Selena. Pegue a tesoura e o resto e vamos embora daqui!
      Em seguida, inclinou o aparelho para trs, firmando-o nas rodinhas traseiras, e foi se afastando do gramado. Ento, caminhando o mais depressa que podiam, 
as duas foram empurrando o cortador ligado pela calada, em direo a casa seguinte.
      - Pegue aqui! disse Selena para Vicki, indicando-lhe que segurasse um lado do cabo com a mo que estava desocupada. Segure firme, hein?
      A garota enfiou a mo no bolso e tirou o papel de Ronny. Verificou o endereo e, em seguida, ergueu o polegar e apontou para a direo da casa em que iriam 
trabalhar.
      -  estaaqui, disse em voz alta por causa do barulho. No tem cachorro.
      Vicki fez um aceno de cabea e ps no cho os apetrechos que carregava. Selena pegou o "touro bravo" pelos "chifres" e saiu empurrando-o pelo gramado. Dessa 
vez, resolveu ir cortando de um lado para o outro, em fileiras paralelas, bem certinhas. A colega se ps a aparar a grama alta que ficava junto  linha da calada. 
Ambas procuraram trabalhar rpido. Parecia que estavam com medo de que novamente aparecesse algum e gritasse com elas. Contudo a porta da entrada no se abriu. 
E as cortinas das janelas nem se mexeram. Se os moradores estavam ali, no pareciam perturbados com a presena delas.
      Vinte minutos depois, Selena limpou o suor do rosto e tentou outra vez desligar o aparelho. No conseguiu.
      - Deve ter agarrado em algo, gritou para Vicki. Acho melhor irmos logo para a outra casa, antes que a gasolina acabe.
      E as duas foram andando rua abaixo, mais parecendo que estavam brincando da "corrida de trs pernas".* Cada uma empurrava o cortador com uma das mos e com 
a outra carregava os demais objetos de jardinagem.
      ___________________
      *"Corrida de trs pernas": brincadeira em que os competidores, formando duplas, enfiam uma das pernas num saco de pano e tentam correr at determinado ponto. 
(N. da T.)
      -  no prximo quarteiro, explicou Selena, indicando com o queixo a direo a seguir.
      Na esquina seguinte, viraram  esquerda. A avistaram um homem que vinha fazendo cooper na calada, em sentido contrrio a elas. Vendo-as, ele sorriu.
      - O pino agarrou? perguntou ele, gritando e parando de correr.
      - Parece que sim, replicou Selena.
      - Posso dar uma olhada? continuou ele, inclinando-se e comeando a mexer no aparelho.
      Selena notou que havia outras pessoas na rua. Teve a sensao de que ela e Vicki estavam dando um "espetculo" para os vizinhos.
      Por que fui concordar em fazer isso para o Ronny? Ainda bem que a Vicki est levando tudo numa boa! Se eu estivesse sozinha, seria bem pior!
      De repente, o motor parou, e o silncio voltou a reinar no bairro.
      - Muito obrigada, disse Selena. Ser que ele vai desligar depois, quando eu o ligar de novo?
      - Vamos fazer uma experincia, disse o homem.
      Em seguida, aquele verdadeiro "cavaleiro medieval" deu um puxo na corda e o motor ligou, com seu irritante rudo. Depois ele girou o pino e o aparelho desligou 
imediatamente.
      - Muito obrigada, moo! exclamou Vicki, tirando os culos e dando um sorriso de gratido para ele.
      O homem olhou para ela, acolhendo o agradecimento da jovem e ficou a fit-la por alguns instantes. Selena compreendeu bem a reao dele. Ela fizera o mesmo 
na primeira vez em que vira Vicki. Nesse momento, achou que isso tinha a ver com os olhos verdes da colega, e suas sobrancelhas finas e arqueadas. Eles lhe davam 
um ar de mistrio. Ela parecia uma daquelas atrizes de pele impecvel, que faziam papel de espi em filmes antigos de espionagem. Na verdade, Selena antes no apreciava 
muito aquele jeito misterioso da amiga. Contudo, depois da conversa amistosa que haviam tido na noite anterior, no se sentia mais intimidada por sua bela aparncia.
      - Espero que funcione direitinho, disse o homem, com um aceno de cabea.
      E foi saindo para reiniciar o cooper. Selena empurrou o cortador at a casa em que deveriam trabalhar. Vicki se ps a caminhar ao lado da amiga.
      - Ser que ele era nosso anjo da guarda? perguntou para a colega.
      - Nosso qu? quis saber Selena.
      - Nosso anjo ministrador, que Deus mandou pra nos socorrer, explicou a outra.
      - De tnis, Vicki? interps Selena. A amiga soltou uma risada.
      - Diz na Biblia que a gente pode acolher anjos sem saber. Li esse texto uns dias atrs. Est em Hebreus.
      - O que voc quer dizer com isso? Acha que aquele cara nos achou com jeito "acolhedor"? comentou Selena.
      A colega riu de novo.
      - Talvez.
      - Onde  que est esse verso?
      - No livro de Hebreus.  um verso do ltimo captulo.
      - Ah, tenho de dar uma olhada nele, afirmou Selena.
      - O que voc est lendo? quis saber Vicki. Quero dizer, na Bblia. Que parte est lendo?
      - Ah, eu no fico s numa parte, no. Leio saltando, explicou a outra. Antes eu estava lendo o Velho Testamento, mas quando as aulas comearam, comecei a ler 
Romanos. Mas ainda estou mais ou menos na metade, concluiu, num tom de quem confessa um erro.
      - Voc fala de um jeito que parece que est cometendo uma falha, comentou Vicki. Acho que  muito bom que tenha lido at o meio. Na sua opinio, quantos colegas 
nossos lem a Bblia sozinhos, em casa? E olha que a Royal  uma escola evanglica, hein?! No precisa se desculpar por estar lendo a Bblia devagar, Selena.
      - ; tem razo, concordou Selena, entrando na terceira casa em que iriam cortar a grama. Quero sentir que leio a Bblia por ter vontade, e no por dever.  
por meio dela que ouo a voz de Deus; e no desejo fazer isso por obrigao. Entende?
      Vicki fez que sim. Colocou no cho os objetos que estava carregando e inclinou a cabea para um lado, dando um sorriso alegre.
      - Sabe o que tenho feito ultimamente?
      Selena esperou que ela explicasse e revelasse o "segredo".
      - Tenho lido a Bblia como se ela fosse uma carta pra mim, explicou a outra. Foi a conselheira do acampamento que ensinou isso. Entro no quarto, fecho a porta 
e leio cada palavra com o corao bem aberto. Ela disse que devo imaginar que Deus escreveu aquelas frases diretamente pra mim, pois escreveu mesmo. Ele  a Pessoa 
que me conhece melhor e me ama mais do que todo mundo. E a Bblia  isso mesmo, n?  uma carta de amor que Deus mandou pra ns. 
      Selena ergueu o rosto. O Sol matutino atravessou as folhas da rvore embaixo da qual estavam, iluminando o rosto fervoroso da amiga. Era como se estivesse 
derramando uma beno sobre ela. 
      - "Primeiro, tranco a porta... por fim, tiro minha cartinha do envelope e devagarinho espio pela fechadura dela", recitou Selena, inspirada pelo encantamento 
daquele instante.
      - Qu? indagou Vicki.
      A garota sorriu e abanou a cabea para afastar do pensamento as palavras de Emily Dickinson.
      - Entendo perfeitamente o que voc est dizendo sobre ler cartas.  um delicioso momento particular. Uma carta de amor que Deus escreveu. Gostei!
      Vicki tambm sorriu, o rosto radiante de alegria. 
      
Captulo Onze
      
      As duas garotas conseguiram terminar o segundo gramado com tempo de sobra para voltar ao da "gravata borboleta". Quando ali chegaram, a dona da casa j as 
esperava  porta da varanda. Agora trocara de roupa, mas ainda tinha uma expresso carrancuda no rosto enrugado.
      - O que vocs esto querendo fazer comigo? indagou assim que as duas entraram. O que fizeram com meu gramado?
      - Estamos fazendo o servio do Ronny hoje, explicou Selena quase gritando.
      Provavelmente, no seria preciso ter falado to alto, mas do jeito que a mulher gritava, ela devia ser meio surda. Ou ento estava com muita raiva delas.
      - Isso eu j entendi. Mas olhem o que fizeram com a grama insistiu a dona, apontando para o cho.
      Do ponto onde a mulher se encontrava, na varanda, pensou Selena, avistava perfeitamente a "gravatinha".
      - Desculpe, falou a garota, chegando ao primeiro degrau da escadinha que dava para a varanda e parando ali. Vamos consertar agora mesmo. Depois, a gente faz 
a parte dos fundos. Est bem assim?
      - Claro que est bem assim!  pra isso que estou pagando! Ah, v se aparam aquelas roseiras que esto na lateral, continuou ela, olhando para Vicki com ar 
incrdulo. Elas esto precisando de uma boa poda.
      Parecia duvidar da capacidade da garota mais do que duvidara de Selena. Vicki fez um aceno afirmativo, e a mulher desceu a escada para lhe mostrar onde ficavam 
as plantas. Selena ligou o cortador e foi logo comeando a aparar a grama. Dessa vez, trabalhava em fileiras paralelas, como fizera nos gramados anteriores. Caminhava 
o mais depressa possvel, procurando fazer um servio perfeito. Como nem Vicki nem a mulher voltaram, ela deduziu que a dona estava dando  sua colega instrues 
detalhadas sobre a poda de roseiras.
      Terminando o jardim, ela virou-se para ir  parte de trs.
      - J acabou? Perguntou-lhe a mulher.
      Selena procurou assumir um ar alegre.
      - J. Agora vou para o gramado do fundo. Acho que a senhora vai gostar do servio que fiz no da frente. Posso passar por este portozinho?
      A senhora olhou-a por uns instantes.
      - No! replicou. No pode passar por a com esse cortador, no!
      -  mesmo! Posso no, comentou Selena, reprimindo a vontade de rir.
      - Ento, d a volta. Vai! falou a dona com um aceno de mo e voltando a inspecionar o trabalho da Vicki.
      O quintal dos fundos era bem pequeno. O cachorro, um vira-lata malhado de preto e branco, correu para sua casinha, aparentemente com medo do cortador. Selena 
no levou nem dez minutos para aparar a grama. E isso foi muito bom, pois j passava de 9:00h, e no havia dvida de que precisaria tomar um banho antes de seguir 
para o trabalho. A dona da casa, porm, no dera o servio por encerrado.
      - Olhe aqui perto desta mangueira, disse ela para Selena. Aqui tem uns matinhos. Se no arrancar hoje, sbado que vem eles estaro do tamanho de minha mo, 
concluiu, erguendo a mo fechada, de juntas ossudas.
      Selena dirigiu o cortador para o lugar onde ela apontava.
      - No, no, no, interveio a senhora. Tem de arrancar com a raiz, seno crescem de novo. Vamos. Arranque. Tire com a raiz.
      A garota obedeceu. Inclinou-se e, durante quase meia hora, ficou a remover os matinhos que havia por todo o quintal. Toda vez que a mulher avistava algo que 
no a agradava, gritava para Selena:
      - Ali, ali! Bem ali! No est vendo, no? Arranque aquele ali.
      Vicki continuava trabalhando nas roseiras. Volta e meia a senhora olhava para ela e gritava:
      - Voc est cortando em ngulo, n?
      - Estou, sim, senhora, respondia a outra pacientemente. 
      Afinal, quando j eram 9:45h, Selena se ergueu e disse:  
      - Por hoje  s! Temos de ir embora agora. Se tivermos deixado algum servio sem fazer, o Ronny completa no sbado que vem.
      A mulher fez uma expresso de surpresa.
      - Ah, o Ronny no faz isso pra mim, no, disse. Ele s apara a grama.
      Selena e Vicki se entreolharam com ar de perplexidade.
      - O pobre coitado trabalha em dois empregos, continuou a dona. Ele no tem tempo de arrancar os matos pra mim.
       , interps Selena, se ns pudssemos, faramos mais, mas eu tambm tenho outro emprego, e vou pegar servio s 10:00h.
      A garota girou o pescoo dolorido de um lado para outro e inclinou o corpo para trs, como quem chega a coluna no lugar.
      - Ento pode ir embora! Vai!
      As duas recolheram o material e foram caminhando em direo  rua.
      - Ah, obrigada, meninas! gritou a mulher.
      Selena virou-se ligeiramente na direo dela e viu que estava sorrindo. Era a primeira vez que a via sorrir. Tinha um jeito normal, quase agradvel.
      As duas foram saindo apressadamente, empurrando o cortador o mais rpido que podiam, seguindo pela calada. A cada desnvel do passeio, era um barulho. Quando 
j se encontravam a uma quadra da casa de Selena, Vicki comentou:
      - Aquele versculo de Hebreus diz que a gente deve tratar bem aos desconhecidos que encontramos, pois poderemos estar acolhendo anjos, sem saber. Acho que 
ns "acolhemos" bem aquela mulher, mas tenho srias dvidas de que ela seja um anjo.
      As duas caram na risada.
      - Voc viu aquela, quando ela disse que o Ronny no tem tempo pra arrancar o mato porque o "pobre coitado tem dois empregos"? indagou Selena, bufando por causa 
da caminhada. Eu deveria ter-lhe dito logo de cara que tambm tenho dois empregos.
      - A que horas voc tem de chegar la? indagou Vicki.
      - Dentro de dois minutos.
      - 'T brincando! Deviamos ter parado mais cedo.
      - , eu sei, concordou a garota. Mas estava dificil escapar. Ela ficava achando matinhos que nem existiam!
      As duas subiram correndo a rampa de entrada da casa de Selena, que guardou o cortador na garagem.
      - Vou ter de voar, disse ela para Vicki. Muito obrigada, amiga, por ter me ajudado. Se no fosse por voc, no teria conseguido fazer o servio.
      - Foi at divertido, comentou a outra. Bem, bom trabalho pra voc! Depois a gente se v. Tchau!
      Selena j ia entrar correndo em casa, mas parou e se virou para a colega. Vicki j estava abrindo a porta do carro.
      - Ei! gritou Selena. Depois eu ligo!
      A outra fez que sim e em seguida deu um aceno com a mo. A sensao que ela teve naquele instante foi de que tudo parecia to natural. Era como se j fossem 
amigas havia anos e fizessem isso todo sbado. Selena estava espantada com a facilidade com que as duas haviam se entrosado.
      Afinal, ela s foi telefonar para Vicki no domingo  tarde. A ligao caiu na secretria, e a garota deixou um recado, dizendo-lhe que telefonasse para ela 
quando pudesse.
      Entretanto o nico telefonema que recebeu, j de tardinha, foi de Tnia.
      - Como est indo tudo com voc? perguntou a irm.
      - Ah, muito bem, respondeu. Ontem fui aparar uns gramados para o Ronny. Foi uma experincia e tanto.
      - Ele pagou, espero!
      - No; fiz apenas um favor pra ele.
      - Isso  algo que eu nunca faria, disse Tnia, aparar um gramado para fazer um favor a algum.
      Selena acomodou-se na sua poltrona predileta da saleta, perto da porta de folha dupla.
      - Bom, replicou, eu vejo a situao da seguinte maneira: uma hora dessas vou precisar de um favor do Ronny; e a vou lembrar a ele do dia em que lhe dei aquela 
fora.
      - Mas e a? J recebeu notcia do Paul? indagou Tnia.
      - Eu lhe falei das duas cartas que recebi no mesmo dia, no falei?
      - , na ltima vez que liguei, voc me contou.  por isso que estou perguntando. J respondeu?
      - Claro. Imediatamente. Mandei-lhe o nosso e-mail. E todo dia estou verificando no computador. Mas ele ainda no enviou nenhuma mensagem.
      - Tem de dar um tempo, disse Tnia. Eu lhe contei que escrevi para Lina?
      - , mame me disse que voc tinha resolvido escrever pra ela. E como foi? Ela j respondeu?
      - No, ainda no. Agora j sei o que voc sentiu quando estava esperando a resposta do Paul, embora no meu caso no seja exatamente a mesma situao.  horrvel 
ficar nesta expectativa. Fico s pensando que deveria ter dito isso ou aquilo de outra maneira. Mas depois que a gente ps tudo no papel e mandou a carta, no tem 
mais jeito de mudar.
      - Isso mesmo, concordou Selena. Mas, no seu caso, aguardar a resposta da Lina deve ser bem mais enervante do que  pra mim esperar uma carta do Paul. O que 
pretende fazer se ela no responder?
      - Ainda no resolvi.
      - Mas se ela escrever ou ligar lhe pedindo pra ir l, voc vai? 
      - Claro, respondeu Tnia. E depois de uma pequena pausa, continuou: j abri at uma poupana para comprar uma passagem area, caso ela me convide para ir l.
      - Voc deve estar muito nervosa, n?
      - De vez em quando, fico, sim. Mas na maior parte do tempo estou tranquila. Vez por outra, tenho uma sensao estranha.  como se no quisesse realmente v-la 
nem saber como ela . Bastaria saber o nome e criar minha prpria imagem dela. Em outros momentos, porm, fico ansiosa para ouvir sua voz e olhar direto no rosto 
dela, nem que seja s uma vez.
      Selena sentiu a garganta apertar de emoo. Ela nunca compreendera bem a irm, em nada. Agora, pela primeira vez na vida, achava que conseguia entender um 
pouco o que Tnia estava dizendo. Via que essa questo da me biolgica era bem mais importante para a outra do que pensara.
      - Espero que ela telefone pra voc, disse por fim. Alis, vou comear a orar pra que ela ligue.
      - Obrigada, replicou Tnia, com um tom de gratido na voz. Obrigada mesmo.
      - Voc quer falar com mame ou papai?
      - No. Diga a eles que liguei e que consegui o trabalho de fazer as fotos para o tal catlogo, explicou a jovem com voz mais natural.
      - Hummm, que timo! exclamou Selena. E esse servio paga bem?
      - Paga!
      - Mas voc no est parecendo muito empolgada, no.
      -  que  uma linha de roupas e acessrios do tipo western. Esqueci o nome da etiqueta. Vou passar quatro dias usando botas e chapu de cowboy, tendo de fazer 
fora para sorrir com tudo aquilo. Vai ser uma canseira para mim.
      Selena riu. Apesar de a familia j ter morado numa cidadezinha tpica do oeste americano, nas proximidades do Lago Tahoe, Tnia nunca usara nada dessa linha, 
mesmo que estivesse na moda. Agora pegava um servio em que teria de fazer exatamente isso: vestir-se como uma verdadeira garota do oeste.
      - Preocupa no, interveio Selena, brincando, provavelmente vo pr no fundo umas belas msicas country pra ajud-la a assumir o papel.
      Tnia soltou um gemido.
      - Selena, se algum dia algum lhe disser que ser modelo  maravilhoso, no acredite, no, viu? A gente tem de suportar cada tortura...
      - Ah, voc j deve saber disso muito bem, n? comentou Selena rindo.
      - Sei, concordou a outra. E voc  quem deveria estar fazendo essas fotos, com aquela velha bota de cowboy do papai!
      - Ei, no deboche das minhas velhas companheiras, no, viu? Ontem, quando fui cortar grama, elas me valeram muito!
      - Ah, que maravilha! disse Tnia com ironia.
      Contudo, dessa vez, a jovem falou em tom de brincadeira. No tinha mais o modo agressivo que empregava antes, quando morava em casa, e as duas discutiam o 
tempo todo. Agora falara de um jeito engraado, como o de uma amiga "gozando" a outra. Foi at agradvel.
      O nico problema era que, em momentos assim, Selena se lembrava de que ainda no resolvera o impasse no relacionamento com Amy. A tinha uma sensao desagradvel 
na boca do estmago. Um tempo atrs, elas eram assim. Brincavam e conversavam uma com a outra sobre questes que lhes interessavam muito. Mas isso havia acabado. 
Agora parecia que a Vicki  que iria tornar-se sua amiga ntima. Entretanto algo a incomodava. Como  que se pode "trocar" de amiga sem um certo sentimento de culpa?
      Depois que Tnia se despediu e desligou o telefone, Selena ainda ficou um bom tempo sentada na confortvel poltrona. Orou pela irm. Pediu a Deus que, se ele 
quisesse, Lina ligasse ou escrevesse e assim as duas pudessem iniciar um bom relacionamento. Em seguida, orou por Amy. Ento achou que j era hora de deixar que 
aquela amizade interrompida fosse caindo no esquecimento.
      

Captulo Doze
      
      - O que voc pretende fazer na sexta-feira? indagou Ronny.
      Era a hora do almoo, e o rapaz estava deitado no gramado da escola. Chovera no dia anterior, mas agora o cu se mostrava claro e maravilhoso. O ar estava 
frio. A luz do Sol descia sobre eles em raios cor de laranja; no diretamente, como no vero, mas num ngulo de quarenta e cinco graus. Se Selena tivesse culos 
escuros, seguramente estaria usando-os nesse instante.
      - No sei, replicou a garota. Hoje ainda  tera-feira. Alm disso, nem sei se j h algo planejado por aqui. Vai haver algum jogo de basquete ou futebol?
      Nesse momento, mais seis alunos se aproximaram dos dois. Ao que parecia, eles tambm preferiam lanchar no ptio, em vez de comer na cantina ou de ir a uma 
lanchonete.
      - , disse Ronny, o jogo de futebol  uma boa opo. Estive conversando com a Vicki e ela contou que na sexta passada foi  sua casa. Como no estou mais trabalhando 
 noite, achei que talvez a gente pudesse se reunir e dar uma sada, fazer algo.
      - Pra mim est timo, concordou Selena. E por falar nisso, cad a Vicki?
      - Acho que ela saiu com o Drake e a Megan para comerem, explicou o rapaz.
      Selena deu uma dentada na ma que trouxera de lanche. Para ela, um bom almoo era um pacote de chips sabor cebola, uma ma e uma caixinha de leite bem gelado. 
Passou-lhe pela cabea perguntar se Megan e Drake - com quem, tempos atrs, ela tivera um princpio de romance - estavam namorando. Contudo achou que no seria legal 
tentar "atualizar-se" com relao ao "rol" de fs do rapaz. O que importava mesmo era que seu nome no figurava nele. Nem no princpio nem no fim. No estava mesmo 
nessa lista.
      Pensando nos "namoros" de Drake, veio-lhe  lembrana sua amiga Amy. Selena ainda no a tinha visto nessa semana. No semestre passado, Amy tinha querido namorar 
o Drake e at tentara marcar um jantar para ele. Convidara Selena para participar desse jantar com o Ronny. Afinal, o encontro acabara no acontecendo. Para Selena, 
isso no tivera muita importncia, mas para sua amiga, ao que parecia, fora muito frustrante.
      A garota foi mastigando a ma devagar, ouvindo o burburinho da conversa  sua volta. Ainda sentia um certo incmodo com relao a Amy. Falhara para com a 
amiga. No soubera enxergar o que era importante para ela nem a ajudara a obter ou realizar algo que era de tanto valor para a colega.
      - Ah, Selena, a propsito, muito obrigado por ter trabalhado pra mim no sbado, falou Ronny, pegando uma batatinha do pacote dela. Voc e a Vicki salvaram 
minha pele.
      - , e quando eu estiver precisando de um favor seu, vou cobrar, viu? Menino, ns trabalhamos demais!  noite, minhas costas estavam doendo tanto! E ainda 
tive de passar pano no cho l no Mother Bear.
      - A dor nas costas  de arrancar mato, explicou o rapaz, virando o pacote de chips e sacudindo-o para aproveitar as ltimas migalhas que ainda restavam ali. 
A D. Priscila vivia querendo que eu limpasse os matos pra ela. Uma vez eu arranquei. Nunca mais.
      Selena fitou-o com um sorriso significativo.
      - E o senhor deveria ter me avisado. Priscila  aquela que tem um cachorrinho no quintal, n?
      Ronny fez que sim.
      - Pois . Ela fez a Vicki podar aquelas roseiras imensas e deu a volta no quintal todo comigo, apontando pra tudo que era matinho. Vou lhe dizer, companheiro, 
arranquei foi muito mato daquele lugar, mais do que havia nele.
      - Arrancou?
      - Sim, senhor, e por causa disso at cheguei atrasada no servio. Minha sorte  que a D. Amelia  muito compreensiva.
      - Ah, ento, se nos sarmos na sexta-feira  noite, terei de pagar algo pra voc.
      - Pra mim e pra Vicki, corrigiu Selena. Ela deu um duro tremendo, a ponto de quase machucar os dedos.
      - 'T bom, ento, McDonald's para as duas, nesta sexta-feira, disse Ronny, pegando a lata de refrigerante e tomando-a toda.
      - Que McDonald's que nada! protestou Selena. Quero ir  no Tony Roma's. Que tal umas costelas?
      - Costelas, n? replicou o rapaz em tom pensativo.
      Ele no parecia muito entusiasmado com a idia de pagar um jantar para trs num restaurante como o Tony Roma's.
      Nesse momento, outro aluno, um rapaz alto, de nome Tyler, veio caminhando pelo gramado e parou junto deles. Selena sempre o considerara um tipo conservador, 
estudioso e at um pouco acanhado. Nessa hora, porm, sua expresso no era de um indivduo muito pacato, no.
      - Oi, Ronny, disse ele, fiquei sabendo do ultimato que voc deu sobre o seu cabelo!  isso a, cara!
      Selena olhou para Ronny, esperando que ele desse alguma esplicao. Ele continuava com o cabelo do mesmo jeito que estivera desde que as aula haviam iniciado 
- amarrado atrs, num pequeno rabo-de-cavalo.
      - Que foi que aconteceu? indagou a garota.
      O colega deu de ombros.
      - Nada, respondeu. S escrevi uma carta pra junta diretora; foi s. Eles tinham me mandado um segundo aviso, dizendo que eu tinha de cortar o cabelo. A escrevi 
pra eles, explicando por que o estava deixando crescer.
      - Ele no contou tudo, interveio Tyler, atraindo a ateno de todo mundo. Ronny deu um ultimato ao pessoal.
      - No foi bem assim. Apenas escrevi uma carta.
      - O aviso que eles deram, interveio Tyler, j era o segundo. Disseram que ele tinha de seguir o regulamento. Se ele no cortasse at sexta-feira, poder at 
ser expulso da escola.
      -  mesmo? indagou um dos rapazes presentes.
      - Meu pai  da junta diretora, explicou Tyler. Ele falou que fazia muitos anos que eles no tinham nem um problema de rebeldia como este. Sempre h muitos 
casos de indisciplina, mas no muitos de rebeldia.
      Ronny abanou a cabea. Seu jeito no era absolutamente o de um rebelde, como Tyler estava dando a entender.
      - E como eles decidiram no modificar o regulamento, concluiu ele, vo comear a agir com rigor pra com os alunos que no se submeterem a ele.
      - Por causa do comprimento do cabelo? indagou Selena. Que importncia tem isso?
      - Meu pai disse que a questo no  o cabelo, explicou Tyler.  o regulamento. Os alunos do Royal tm de dar exemplo pra comunidade.
      Selena olhou para o Ronny. O colega estava sentado, ouvindo tudo calado e aparentemente tranquilo.
      - O que voc falou na carta? indagou ela.
      - Apenas expus as razes por que deixei o cabelo crescer. Depois, disse que a deciso era com eles e que eu acataria o que eles decidissem, explicou ele, dando 
um dos seus sorrisos tpicos, entortando a boca. Dei a eles at quinta-feira pra me responderem.
      Tyler ergueu o punho cerrado, num gesto de valentia, como se aquela "briga" fosse dele.
      -  isso a, Ronny! exclamou. Tem de agir e assim mesmo. Devolve o ultimato pra eles!
      - No entendi, interveio Selena. Pra que essa guerra de ultimatos?
      Ela ficou olhando para Tyler que se sentara perto dela e dava um sorriso amplo, parecendo muito satisfeito. A garota obsservou que o cabelo dele era bem curto 
e at meio "espetado" no alto. Alis, ele no ficava nada bem com aquele corte, pois tinha o rosto comprido e a testa grande.
      - O importante a foi a resposta brilhante que ele deu, replicou o rapaz. Ele virou as armas da diretoria contra ela prpria. Est comeando a revoluo!
      Uma das garotas presentes riu e atirou no rapaz um saquinho de papel amassado. Selena virou mais o pescoo para olhar diretamente para o Tyler. Teve de fechar 
ligeiramente os olhos por causa do brilho do Sol em seu rosto. Por que seria que esse rapaz, de repente, "comprara" essa briga? Ser que ele prprio tinha algum 
problema com o pai ou com a junta diretora?
      - Ah, fez Ronny, inclinando-se para diante e falando em voz baixa, a questo no  assim to importante nada. Logo que as aulas comearam, eles me mandaram 
um aviso, citando um artigo do regulamento. O que eu fiz? Li o regimento todo. Nele, h uma poro de normas que hoje em dia no tem mais nada a ver. E citei isso 
na minha carta.
      - O que, por exemplo?
      - L diz que todos os alunos tm de ficar em p durante a saudao  bandeira, a leitura da Bblia e a orao.
      - E qual o problema disso? quis saber Selena.
      - Nenhum. Mas qual o professor do primeiro horrio que lembra de fazer a saudao  bandeira? Qual deles leu a Biblia no semestre passado? E quantos oram antes 
de comear a aula?
      Selena ficou pensativa.
      - , muito poucos, respondeu ela. Ah, entendi o que quer dizer.
      - No regimento, eles citam um versculo de 1 Corntios para dizer que o cabelo comprido  vergonhoso para o homem, continuou o rapaz, dando de ombros. Ento 
eu disse que na comunidade onde vivo, trabalho e tenho meu lazer, o meu cabelo no  considerado comprido. S aqui na escola  que eles o vem assim. Depois, expliquei 
por que deixei o cabelo crescer.  por causa da banda. Citei um versculo de 1 Corintios 9, em que Paulo diz que, como ele est livre da lei, est disposto a se 
tornar tudo para com todos, de modo que possa ganhar alguns.
      A garota se sentia espantada diante da calma com que Ronny fazia sua defesa.
      - Agora eles receberam o que mereciam, falou Tyler entusiasmado. Fogo a gente responde com fogo! Eles no tm o direito de determinar a maneira como devemos 
nos vestir e o que podemos fazer!
      Dava para perceber quem de fato era o "rebelde" ali.
      - Depois ento, prosseguiu Ronny, expliquei que o nosso grupo tem um lema evangelstico que  alcanar nossos companheiros onde eles esto, para comunicar-lhes 
as boas-novas de Cristo. E disse que, para ter sucesso nesse ideal, creio que tenho de deixar meu cabelo do jeito que est.
      - S isso? indagou Selena. Sua carta foi s isso?
      - E a vinha o ltimo pargrafo. 
      - Que era o do ultimato?
      - Eu disse que, como eles so uma autoridade que Deus estabeleceu pra mim aqui na escola, iria submeter-me a eles. Comuniquei que faria o que eles decidissem. 
Mas preciso ter a resposta at quinta-feira, para poder atender  data que eles tinham determinado previamente.
      - E se eles disserem que voc tem de cortar o cabelo? quis saber a garota.
      - Eu corto.
      - E voc no se importa?
      - No muito. Parece que tem gente se importando mais que eu.
      - Se eles o obrigarem a cortar o cabelo, interveio Tyler, acho que todos ns deveramos fazer o mesmo. Vamos todos cortar.
      - ... sim..., disse outro rapaz em tom sarcstico.
      - Eu no vou cortar, comentou uma garota de nome Bethany. Meu cabelo levou quatro anos pra chegar neste ponto.
       Exatamente, concordou Tyler. E  por isso que no podem obrigar o Ronny a cortar o dele.
      - Parece que voc  que est querendo entrar nessa briga, disse Bethany, apontando para Tyler. Por que no deixa o  seu crescer pra ver o que seu pai diz?
      O rapaz ficou imobilizado. Todos o olharam para ver qual seria sua resposta.
      - At parece que isso vai acontecer, resmungou por entre dentes.
      - Acho que o Ronny encarou o problema muito bem, comentou Selena. Alm disso, a gente tem de se preocupar mais  com o interior de uma pessoa, e no com a 
aparncia dela, no ?
      Antes que algum respondesse, a campainha tocou, indicando que o horrio de almoo estava encerrado. Todos se levantaram e foram saindo, cada um para sua classe, 
ainda conversando sobre o que aconteceria na quinta-feira, a data marcada por Ronny. Selena pensou que aquela turminha ali no era precisamente um bando de "rebeldes" 
nada. E mais ainda levando em considerao que o Ronny, o piv do caso, mostrava-se bem relutante em liderar qualquer movimento nesse sentido.
      - O que voc acha que vai acontecer, Ronny? Perguntou Selena no momento em que se dirigiam para a sala de aula.
      O rapaz deu de ombros. Apenas sorriu tranquilamente, como quem no est nem um pouco com medo.
      - S o tempo dir, respondeu.
      

Captulo Treze

      Quando as aulas terminaram, na quarta-feira, Ronny ainda no havia recebido nenhuma resposta da diretoria com relao ao cabelo. Ao que parecia, toda a escola 
estava sabendo do problema.  hora do almoo, Selena vira o amigo, perto dos escaninhos, rodeado de colegas que o interrogavam sobre a questo. O rapaz nem conseguira 
chegar  cantina. A garota ficou com a impresso de que ele no almoara.
      Terminada a aula, avistou o colega parado no estacionamento, perto da caminhonete dele, outra vez cercado de estudantes. Aproximou-se do grupo.
      - Eu acho que voc deveria escrever outra carta pra eles, disse uma das garotas. E diga que todos ns pensamos o mesmo que voc. Eles no podem ir estabelecendo 
tantas restries assim.
      - Ser que no confiam na gente? interps outra menina.
      - Temos de fazer um requerimento, acrescentou um rapaz.
      Outros estudantes se juntaram a eles e, de repente, todos estavam falando ao mesmo tempo, cada um dando sua opinio. Selena estava cada vez mais admirada pelo 
modo como Ronny estava encarando tudo. Ficava s dizendo que ainda era quarta-feira. O PC (Poder Consttuido, apelido que Tyler criara para a junta diretora) poderia 
responder at quinta. No havia necessidade de tomarem nenhuma medida radical.
      - Vamos esperar at amanh, disse ele em voz firme para superar o burburinho do grupo, que parecia estar querendo uma briga. Parece que vocs esqueceram que 
eu disse que vou obedecer  deciso deles, seja ela qual for. Eles so autoridade sobre ns.
      - , mas e se a deciso deles for errada? No  certo a gente se submeter a um grupo de lideres que se acham totalmente desligados de nossa realidade.
      Quem disse isso foi um estudante baixinho, de culos, que logo pareceu meio assustado com o fato de todos se virarem para ele.
      - Quero dizer, prosseguiu ele, acho que a gente s deve acatar a deciso deles se ela for boa.
      - Isso mesmo! concordou outro rapaz. Somos ns que estamos mais a par do que se passa na comunidade. Eles se acham completamente desligados dela.
      - E no sabem o que  mais importante, disse uma garota de voz aguda. Ns  que deveramos fazer todos os regulamentos, para no ter de seguir essas normas 
ultrapassadas.
      - Pois eu acho que eles deveriam deixar cada um fazer o que achar que  certo e se preocupar apenas com nossas notas. Afinal,  pra isso que a gente estuda, 
n?
      - Minha tia disse que, quando ela estudava aqui, as alunas s podiam usar vestido.
      - Puxa, que ditadura! exclamou algum. Agora eles no podem mais agir desse modo, podem?
      - , agora eles tem de observar os direitos dos alunos. E se a gente quiser usar o tipo de roupa que achar melhor, ou cortar o cabelo da maneira que preferir, 
eles no podem baixar nenhuma outra norma!
      -  mesmo! disseram vrios estudantes em coro.
      A essa altura, j havia ali uns vinte alunos ou mais.
      - Espere a, gente! interveio Selena, que finalmente a conseguira criar coragem para falar. Isto aqui est parecendo o pov do livro de Juzes! Nem acredito 
no que esto dizendo.
      A garota agora estava irritada, por ela e por Ronny, j que o amigo parecia ter resolvido assumir uma atitude passiva.
      - Esqueceram aquela classe de estudo bblico que tivemos no semestre passado? continuou ela. O ltimo versculo do livro de Juzes diz o seguinte: "Cada um 
fazia o que achava mais reto". E foi justamente a que a nao desmoronou.
      - Ah, mas isso foi no tempo da Bblia! disse Tyler, adiantando-se e dando a impresso de que queria discutir. O que isso tem a ver com nossa situao? Aquilo 
ali no se aplica a ns, no.
      - Aplica sim, retrucou Selena, sentindo o corao bater forte. Tudo que Deus queria ensinar pra eles naquela poca, quer ensinar pra ns hoje. Gente, vocs 
no esto vendo que o Ronny est agindo certo? Ele est disposto a se submeter queles que so a autoridade aqui. Mas antes, ele apresentou seu lado da questo; 
e o fez com muito respeito. Todos ns devemos apoiar essa atitude dele, sem procurar fazer dele um pretexto para iniciar uma rebelio aqui.
      - Muito bem! gritou algum batendo palmas, atrs de Selena.
      A garota se virou para ver de quem era aquela voz firme e grave. Era Drake, o mais importante atleta da escola.
      - Estou do seu lado, Selena! disse ele, sorrindo para a garota.
      - Do meu lado? indagou a garota, correndo os olhos pelos colegas  sua volta.
      Ali agora havia cerca de trinta estudantes, a maioria eram formandos.
      - No existe nenhum "meu lado", prosseguiu ela. Eu estava apenas falando em nome do Ronny, porque o pessoal aqui est querendo transformar este episdio em 
algo diferente.
      - E como o Ronny mesmo disse, interps Bethany, falando bem alto para que todos ouvissem, enquanto a junta diretora no tomar a deciso dela, no existe nada 
pra se discutir. Alm disso, ele tambm falou que vai acatar a determinao deles, seja ela qual for. Por que ser que todo mundo est querendo fazer disso uma briga?
      - Ento vamos nos reunir amanh depois da aula, props Tyler. A ento vamos saber se j  o momento, ou no, de tomar partido de um ou de outro. J est passando 
da hora de se fazerem algumas mudanas nesta escola. E pra mim, isso tudo  apenas o comeo.
      O grupo foi se dispersando lentamente, cada um tomando sua direo, todos falando ao mesmo tempo. Selena ainda sentia o corao batendo forte. Obedecendo a 
um impulso, deu um murro no brao de Ronny.
      - Pra que isso? indagou o rapaz, espantado de haver levado um soco dela.
      - Por que voc no falou nada? perguntou ela.
      - Porque sou pacifista. No sou como certas pessoas que conheo, replicou ele, esfregando de leve o ponto onde ela batera. Ai!
      - Desculpe! interps a garota, fazendo um enorme esforo para se acalmar.  que fico nervosa com esse pessoal querendo fazer uma revoluo, sem nem saber direito 
pelo que est lutando. Parecia que eles queriam fazer do seu caso uma espcie de "causa" pela qual devem lutar. Voc no fica nem um pouco incomodado, no?
      Ronny abanou a cabea.
      -  como minha me sempre diz: "Isso tambm vai passar!"
      A garota fitou-o com ar de dvida.
      - Calma, Selena! Eles vo superar isso. No existe motivo pra briga. Se o PC disser: "Corte o cabelo", cortarei. E a acaba tudo.
      - Tenho minhas dvidas, comentou a garota.
      Vicki aproximou-se e parou ao lado de Selena.
      - Oi, gente! O que  que est acontecendo? Ouvi algum dizer l no corredor que estava havendo uma reunio aqui, e que era pra todo mundo se reunir aqui amanh 
de novo.
      - Nada no, respondeu Ronny.
      - , interps Selena, mas pode vir a acontecer.
      - Isso veremos, disse o rapaz. Agora tenho de ir pra casa pr uma bolsa de gelo no brao, antes que ele comece a inchar.
      - Algum lhe bateu? perguntou Vicki, olhando primeiro para ele e depois para a amiga.
      - Bateu, disse Ronny. Minha diretora de campanha me deu um murro.
      - No sou diretora de campanha nada, protestou a garota.
      - 'T bom. Ento  minha defensora pessoal.
      - Se voc tivesse defendido sua causa, no precisaria de uma defensora pessoal.
      - Qual ? Eu no tenho causa nenhuma, esqueceu?
      Vicki bateu o p no cho com fora.
      - Algum, por favor, quer me explicar o que est acontecendo aqui?
      - Ela me deu um murro, replicou Ronny, apontando para Selena e assumindo um ar de garotinho. Vou pra casa contar pra minha me.
      A garota achou muito engraadinha sua expresso de "cozinho" machucado.
      - Calma a, Vicki, disse ela, abanando a cabea e olhando para o colega, eu lhe conto tudo. Voc pode se encontrar comigo na Eaton's daqui a pouco? Prometi 
a minha me que vou levar a V May l agora, depois da aula, pra que ela saia um pouco.
      - No vai dar, no. Tenho de ir pra casa, explicou a outra. Quero ir  reunio dos jovens hoje  noite, e meus pais disseram que s posso ir  igreja durante 
a semana se terminar todos os trabalhos da escola. E estou com muito dever pra fazer.
      - Ento eu a encontro na reunio, e a lhe conto tudo, concluiu Selena.
      - O.k.Tchau!
      Selena se encaminhou para o carro que se encontrava do outro lado do estacionamento. Ronny j estava saindo de caminhonete e deu uma acelerada no motor, quando 
passou por ela. Em seguida, fez-lhe um aceno meio desajeitado, como quem est com o brao doendo. A garota acenou tambm. Teve uma sensao desagradvel. Aquela 
reao de dar um murro no brao dele fora meio tola. Era algo que fazia com os irmos mais velhos. Fizera-o to instintivamente que nem notara que havia batido nele. 
S depois  que percebera o que havia feito. Embora visse o rapaz como um bom amigo e colega, nunca o tinha agredido daquele jeito.
      - Sabe o que mais, Selena? disse para si mesma, ligando o carro e arrancando. Tem hora que voc parece adulta, madura e muito educada. Mas, de repente, surge 
dentro de voc uma bola de fogo que explode tudo. Quando  que vai crescer e ficar livre dessa agressividade?
      , mas ela j sabia da resposta, que era: "Nunca!"
      J era sabido que as mulheres da famlia Jensen tinham a capacidade de se defender sozinhas. E essa "bola de fogo" que havia dentro delas no "morria" nunca. 
A prpria V May era assim, antes de comear a ficar esclerosada. Selena recordou-se de um fato que acontecera quando era criana. Achava-se no carro com a av, 
e a certa altura pararam num sinal, numa rea residencial. Ali viram dois garotinhos na calada, chupando picols, bem satisfeitos. De repente, apareceu um menino 
maior, deslizando num skate. Ele passou pelos garotos, pegou o picol de um deles e saiu rapidamente rua abaixo.
      V May arrancou, "cantando pneus", e dobrou a esquina, saindo em perseguio ao menino. Este olhou para trs e, quando percebeu que ela vinha, tentou mais 
depressa. Contudo bateu num desnvel da calada e caiu. V May parou o carro junto ao meio-fio. Desceu e agarrou o menino. Fuzilando de raiva, passou-lhe uma repreenso 
severa. O picol havia caido no cho, mas ela tirou dinheiro do garoto. Em seguida, voltou onde estavam os outros meninos e deu o dinheiro para o pequeno de quem 
ele roubara.
      E no foi s isso. Os garotos lhe disseram que haviam comprado os picols em uma van grande. Ela desceu a rua e foi at onde estava o veculo - sete quarteires 
abaixo. Comprou dois sorvertes - um para ela e outro para Selena - e tambm um picol. Voltou ao lugar onde o garotinho estava e o deu a ele.
      No havia dvida de que as mulheres da familia Jensen sempre lutavam em prol da justia e da verdade. Anos atrs, a me de Selena at brincara com a V May 
nesse sentido. Dissera-lhe que ela devia arranjar um capacete vermelho-vivo, e a estaria preparada para proteger o mundo todo. A av aceitara bem a brincadeira. 
Selena ficou a observar tudo e aprendeu uma lio. Ela prpria no reagia dessa maneira calma, quando a me "brincava" com ela, dizendo que era igualzinha  V May. 
Selena teve a impresso de que sua me no sabia o que era ter aquela "bola de fogo" dentro de si. Se j a sentira, a dela no era da mesma intensidade das que havia 
no interior das mulheres da famlia Jensen. Era por isso, e por outras razes tambm, que a garota se via muito ligada  av, mais at do que  me.
      Justamente pelo fato de V May ter sido uma mulher forte, era muito triste para os familiares v-la agora numa condio fragilizada. Pensavam nela como uma 
pessoa cheia de fora, nunca fraca.
      Agora Selena entendia melhor como era doloroso para sua me estar cuidando da av. Fora exatamente por esse motivo que se oferecera para ajudar naquilo que 
lhe fosse possvel. At o momento, o melhor que poderia fazer era sair com V May, pelo menos uma vez por semana, levando-a aos lugares aonde ela gostava de ir. 
Nessa tarde, ela planejara ir a Eaton's, uma drugstore* que ficava perto de sua casa. Era uma loja antiga. J existia ali antes de V May ter ido morar naquela casa. 
Ento, fazia mais de cinquenta anos que ela ia l; e quase sempre ao setor da lanchonete. Sempre que um dos nove filhos dela comeava a estudar, ela o levava a Eaton's, 
no primeiro dia de aula, para tomar um milk-shake. E fizera o mesmo com os netos, depois que estes se mudaram para Portland. Nesse ano, porm, ela nem se dera conta 
de que as aulas j haviam comeado. A garota chegou em casa  hora de sempre, pouco depois de 3:30h. V May j estava pronta para sair e a esperava sentada no balano 
da varanda, junto com a me de Selena.
      ___________________
      *Drugstore: uma farmcia que, alm de medicamentos, vende tambm cosmticos e outros artigos. Algumas possuem um setor de lanchonete. (N.da T.)
      
      - Desculpem! falou. Estou um pouco atrasada. J est pronta para ir  Eaton's, tomar um milk-shake, v?
      A senhora acenou afirmativamente. Em seu rosto, havia uma expresso tranquila, de quem est satisfeita. Selena no tinha certeza se ela entendia bem o que 
haviam conversado. A me deu-lhe um olhar de gratido e disse:
      - Olha, ns s vamos jantar hoje por volta de 6:30h.
      Agora era Selena que no compreendia bem o que ela quisera dizer. Poderia ser:
      "Por favor, saia com ela e me de um descanso pelo menos at s 6:30h."
      Ou ela poderia estar apenas informando a hora do jantar.
      - 'T bom, replicou ela. Voltaremos a essa hora.
      Sua inteno era dar a entender que iriam passar momentos to agradveis na Eaton's, que seria at difcil se arrancarem de l para chegar em casa s 6:30h.
      No momento em que V May vagarosamente se sentava no banco de passageiros do carro de Selena, a garota pensou se a amada avozinha estaria mesmo compreendendo 
tudo o que faziam. Ser que ela sabia aonde estavam indo? E ser que isso fazia alguma diferena para ela? Ser que estava com a mente lcida e entendia tudo, inclusive 
a indireta da me para que ficassem fora at pelo menos s 6:30h?
      A nica maneira de saber era esperar que V May conversasse com ela para ver se a chamaria de "Queridinha". O problem era que, nesse momento, quando desciam 
a rua em direo  Eaton's, V May no parecia querer conversar.
      

Captulo Quatorze
      
      V May e Selena entraram na loja e se dirigiram para o setor da lanchonete. Ainda havia ali os assentos forrados em vinil vermelho, exatamente como quando 
ela era criana. At a lista dos artigos, que ficava acima do espelho, parecia a mesma. S os preos haviam mudado.
      Selena inclinou um pouco a cabea e dirigiu um sorriso agradvel  av.
      - O que a senhora quer, v? Que tal um milk-shake de chocolate?
      Ela prpria se assustou um pouco com seu tom de voz. Falara do mesmo jeito como a av se dirigia a ela quando era criana. A maneira como inclinara a cabea 
e como dissera aquilo tinha sido idntica  forma como V May fazia anos atrs.
      O que voc quer, Selena? Que tal um milk-shake de chocolate?
      Sem querer, at imitara seu modo de falar "milk-shake". E tudo isso era muito estranho. Parecia que as duas haviam trocado de lugar. Agora fora Selena quem 
dirigira o carro; e era ela quem pagaria o lanche. V May passara a ser "a criana".
      - timo, replicou a senhora.  o que quero.
      Por um momento, Selena pensou que ela iria dizer "Queridinha", e assim poderia ficar mais tranquila. Contudo ela s disse "quero", muito diferente do apelido 
pelo qual a av tratava a neta.
      - Dois milk-shakes de chocolate, por favor, pediu para a garonete que viera atend-las.
      - E um caf, interveio V May, fazendo seu pedido.
      Selena sorriu.
      - , e um cafe, repetiu.
      Agora ficava difcil continuar vendo a av como criana, j que ela pedira caf. A garota ficou alegre de ver que a prpria V May pedira o caf. Isso era 
bom sinal.
      Compreendeu que era isso que sua me passava todos os dias, ao cuidar da av. Tinha de estar constantemente procurando descobrir como a senhora estava. Ser 
que est lcida hoje? O que ser que ela quer? Ser que poder pedir o que quer? Ser que vai ficar ofendida se eu fizer para ela algo que normalmente faz sozinha? 
Sua me precisava observar a av o dia todo, tentando ver e analisar os indcios que ela dava acerca de sua condio. Tal cuidado poderia ser tremendamente cansativo.
      Algum entrou na loja, fazendo soar o alegre sininho que havia na porta. Selena olhou na direo da entrada. Seu corao deu um salto. Era Amy. Ao que parecia, 
a colega no a vira. Foi diretamente para o balco de medicamentos, que ficava ao fundo da loja.
      At esse momento, a garota estivera convencida de que deveria deixar sua amizade com a colega ir "morrendo" aos poucos. Agora, porm, teve uma sensao diferente. 
Lembrou-se da ocasio, quando era pequena, em que se escondera no poro, esperando que um dos irmos fosse procur-la. Ocorreu-lhe que talvez Amy tivesse feito o 
mesmo. De certa forma, esta tambm puxara um lato de lixo, cheio de enxadas e ancinhos, e se escondera atrs dele. Provavelmente, tambm j comeara a sentir frio 
a ficar com as pernas dormentes. Contudo ainda no se dispusera a sair.
      Tenho de ir conversar com ela, pensou. Mas o que vou dizer? Talvez, se eu comear, as idias surgiro depois.
      Ergueu-se do tamborete com um movimento brusco, como se ele tivesse uma mola.
      - V May, disse lentamente, vou dar uma chegadinha ali no fundo da loja e volto j. Se ela trouxer o milk-shake antes de eu voltar, no me espere, no. Comece 
a tomar o seu.
      Selena percebeu que estava falando como quem conversa com uma criana de trs anos.  que queria deixar tudo bem claro.
      - Volto j, o.k.?
      - O.k., respondeu a av. No precisa se apressar por minha causa.
      - 'T bom, concordou a garota.
      E foi saindo, dirigindo-se para o fundo da loja. Molhou os lbios e disse para si mesma que no precisava ficar to nervosa. Fazia vrias semanas que aguardava 
um momento como esse. Obviamente, ali no era o melhor lugar para conversarem, mas ao que parecia, ela nunca teria uma situao melhor que essa. Sua vontade era 
gritar para a amiga:
      "Campo livre, Amy!"
      Queria dar a entender que no precisava mais ficar se escondendo.
      - Amy, oi!
      As palavras no saram exatamente como ela queria.
      -  Eu estava ali no balco de lanches com minha av e a vi entrar. Como est?
      A colega fitou-a atentamente, sem mudar a expresso do rosto. No parecia surpresa de ver Selena. Tinha um olhar vazio, que no deixava entrever nada.
      - Estou bem; e voc?
      - Muito bem. No a vi na escola nem uma vez est semana.
      A outra no respondeu, continuando a olhar para a amiga.
      - Voc estava doente? indagou Selena.
      - No.
      - Ah, ainda bem.
      Houve uns instantes de silncio. No havia mais ningum no balco de medicamentos, e o farmacutico se achava mais para dentro, aparentemente preparando a 
receita de Amy. Isso lhes dava certa privacidade. Era um bom momento para terem a conversa que, havia tanto tempo, Selena queria manter com a colega.
      - Ento, como tem passado? tentou Selena novamente.
      - Muito bem.
      - timo!
      Ao que parecia, Amy no queria ceder nem um pouquinho e aceitar o dilogo. Selena pensou que poderia dizer algumas lavras "fortes" para "provocar" a outra, 
forando-a a falar. Essa tcnica j dera certo anteriormente. Contudo hoje no devia agir assim. Ali teria de usar de muita cautela. Tentar reconquistar uma amizade 
perdida era uma operao muito delicada.
      - Voc tem ido ao colgio, mas eu no a tenho visto, ou o qu? Arriscou-se a perguntar.
      Amy baixou os olhos e depois os ergueu de novo, mas sem fitar diretamente a amiga.
      - No estou mais estudando no Royal, explicou afinal.
      - ? Eu no sabia disso! Por qu?
      Outra pausa.
      -  por causa de seus pais? insistiu Selena com certo cuidado.
      Amy fez que sim. No demonstrava estar ressentida nem parecia querer dar mais informaes.
      - Que pena!
      - Tudo bem!
      - Como  que est a situao entre seus pais? Melhorou?
      - Acho que sim. De certo modo, sim. Na verdade, est melhor do que quando moravam juntos. Eles esto se dando melhor um com o outro, e pelo menos passo algum 
tempo na companhia de cada um. Ento, est tudo bem.
      Selena ficou feliz ao ver que a amiga se abria um pouco. Aproveitando isso, continuou:
      - Sinto muito ter sado tanto nessas frias, quando voc estava passando por tudo isso com seus pais. Tentei ligar pra voc da Califrnia, mas no consegui 
peg-la em casa nem uma vez. Deixei recado na secretria.
      - Deixou?
      - Vrias vezes. Depois, como voc sabe, viajei pra Sua. Foi meio de repente, e no tive tempo de ligar pra ningum.
      Amy fez um aceno afirmativo.
      - Quando voltei, foi uma correria, com o meu servio e a necessidade de arrumar tudo pra iniciar as aulas. Um dia, fui l no restaurante esper-la depois do 
trabalho, mas voc j tinha sado. Depois, fui  sua casa com uma cesta de caf da manh.
      - Quando foi isso? indagou Amy.
      - Umas duas semanas atrs. Seu pai no lhe contou? Acho que ele estava dormindo e eu o acordei. Ento, quando atendeu a porta, no estava l muito satisfeito.
      - Ele no me disse nada, explicou a outra.
      - Ah, pensei que ele iria lhe contar. Levei uma cesta de caf da manh pra ns. Achei que assim a gente poderia conversar.
      - Olhe aqui, Selena, falou Amy, colocando um p  frente como que tentando se equilibrar melhor, estou alegre de voc estar me contando tudo isso. No sabia 
que havia me telefonado nem ido l. Ningum me falou nada.
      - Eu queria muito conversar com voc. No gosto do jeito como est a situao entre ns.
      Amy ficou tensa.
      - Sei que voc acha que precisamos ter uma conversa e nos abrir uma com a outra, replicou. Mas no penso assim. Tem certas coisas que  melhor a gente no 
dizer. Voc tem sua vida e seus novos amigos. Eu tenho a minha. Vamos deixar por isso mesmo.
      - Eu no quero deixar por isso mesmo, no, afirmou Selena teimosamente.
      - Sinto muito, mas acho que voc no tem outra escolha, interps Amy, com uma fasca de energia nos olhos escuros. No quero mais ser sua amiga, Selena, e 
 isso a!
      - No! No tem de ser "isso a", no! retrucou a garota, sem saber direito como se expressar.
      Queria muito passar a Amy o que sentia com relao a ela. A colega, porm, abanou a cabea, desviando o olhar.
      - A questo  que voc tem alvos e expectativas muito elevados para si mesma e tenta imp-los aos seus amigos. Ento, vamos encarar a verdade: eu no estou 
 altura deles.
      Selena ficou sem saber o que responder. Tentou pensar numa boa resposta. A amiga parecia um foguete prestes a ser lanado ao espao. Ela no queria se "queimar" 
na hora em que ocorresse a exploso do lanamento. Continuou hesitando, sem saber o que dizer. Nesse instante, o farmacutico chegou ao balco.
      - Amy Degrassi! chamou ele.
      - Pois no! respondeu Amy, virando-se para ele. No tenho mais nada pra lhe dizer, Selena. Tchau!
      Ela falara com firmeza, sem olhar para a outra. Selena no sabia o que fazer. Se estivesse sozinha, se no estivesse acompanhada de V May, iria atrs da amiga. 
Seu esprito de luta iria impulsion-la a seguir a outra at o estacionamento. Ali, sim, teria uma plataforma mais segura para o "lanamento do foguete". No tinha 
medo de insistir com a amiga. Tampouco temia o que esta pudesse lhe dizer. Pelo menos, elas colocariam tudo em pratos limpos. O problema era que no poderia deixar 
V May sozinha.
      Amy continuava de p junto ao caixa, pagando sua compra. Selena virou-se e foi em direo ao balco de lanches. Bastava de tentativas de fazer a outra "sair 
do esconderijo".
      Quer dizer ento que Amy no estava fazendo o "joguinho" que achei que ela estava. Pensei que ela queria que eu ficasse atrs dela at "encontr-la", Como 
pude me enganar tanto?
      Assim que ela saiu do corredor da loja que dava para o balco de lanches, seu corao parou. Sobre ele estavam os dois copos de milk-shake e o caf ainda intatos. 
O tamborete estava vazio. V May desaparecera.
      
Captulo Quinze
      
      - V May! gritou ela nervosamente, olhando para um lado e outro. Viu aonde minha av foi? perguntou  garconete.
      - No. No vi quando ela se levantou.
      Selena saiu correndo para o estacionamento.
      - V May! gritou de novo, sem se importar com o que os outros pensariam.
      Nesse momento, Amy saa da loja. Ao avistar Selena, virou o rosto e continuou andando em direo ao carro.
      - Amy, chamou a outra, minha av desapareceu! Pode me ajudar?
      A colega parou e olhou-a com ar de suspeita.
      - Ela estava aqui comigo, no balco de lanches, mas quando voltei, havia desaparecido. Ningum aqui a viu sair. Ser que voc pode me ajudar a procur-la? 
Voc sabe como ela fica.
      Amy hesitou por uns instantes e depois soltou um suspiro de resignao.
      - Onde ser que ela foi?
      - No fao a mnima idia.
      - Ela morou aqui quase a vida toda, comentou Amy. Conhece bem este bairro. Tem aqui algum lugar a que ela gosta de ir, uma praa ou algo assim?
      - Creio que no. Se ela no estiver lcida, pode ter sado caminhando por a, sem saber onde est. Acho que devamos sair, cada uma no seu carro, e dar a volta 
nesses quarteires por aqui.  isso que eu e minha me fazemos. Ser que voc pode procurla nas quadras desse lado? indagou ela, apontando numa direo. Eu procuro 
no lado de c.
      - Tudo bem, concordou Amy.
      - Depois que voc tiver dado umas voltas, a gente se encontra aqui. Ah, olhe tudo, mesmo lugares que podem parecer estranhos, como a varanda ou o quintal das 
casas.
      -Eu no vou ficar espiando no quintal dos outros, no, Selena, protestou Amy.
      - 'T bom. Ento chame-a, o.k.? Ela a conhece, e se voc a chamar, ela vir. A gente se encontra aqui.
      Selena entrou em seu carro e ligou o motor. Seu corao estava batendo depressa, enquanto rodava de um lado para outro, nas ruas prximas  Eaton's, gritando 
o nome da av.
      - Ei! V May!
      No havia nem sinal dela.
      Ah, que horrvel! O que e que eu vou fazer? No devia t-la deixado sozinhah! Nem um minuto! O que vou fazer?
      Deu a volta em mais um quarteiro, j era o sexto. Ainda no via sinal de V May. Mesmo que ela estivesse boa da cabea, no teria caminhado mais do que essa 
distncia. Ainda assim, Selena procurou em mais duas quadras, s para ter certeza absoluta. No a encontrou.
      Talvez Amy a tenha achado. Oh, espero que ela a tenha encontrado!
      Resolveu voltar para a loja. Estava com tanta pressa de chegar ali que, num determinado cruzamento, quase bateu em outro carro que atravessou  sua frente 
em alta velocidade. Pisou no freio, e o outro veculo passou como um jato. O motorista a olhou com cara feia, como se ela fosse a nica errada.
      Calma, Selena! pensou. Sofrer um acidente agora no vai melhorar em nada a situao.
      Procurando tranqilizar-se e dirigir com toda ateno, Selena rodou o resto do caminho orando, com a esperana de que, assim que entrasse no estacionamento, 
visse V May no carro de Amy.
      O velho e acabado Volvo da amiga j se encontrava ali, mas a av no estava nele. Selena entrou numa vaga meio apertada e saltou do Fusca. Foi correndo para 
onde Amy se achava. A amiga nem desligara o carro.
      - No encontrei, no, foi logo dizendo. Espero que tudo acabe bem. O que voc vai fazer agora?
      Selena bateu a mo com fora na lateral do Volvo, soltando um suspiro, demonstrando temor e desalento.
      - Acho que tenho de ir pra casa e contar para os meus pais, respondeu.
      Amy fechou a boca apertando os lbios.
      - Bom, preciso ir embora. Espero que tudo termine bem.
      - Obrigada, Amy, obrigada pela ajuda. Eu agradeo muito.
      As duas ficaram em silncio e, por um instante, se fitaram nos olhos. Agora j no havia mais bola de fogo por dentro nem foguete espacial.
      - De nada. Tchau!
      - Tchau! replicou Selena ainda relutante.
      Em seguida, voltou para o carro. A caminho de casa, resolveu dar mais uma procurada pelo bairro para o caso de ela ou Amy terem esquecido de olhar em algum 
lugar.
      E se V May tivesse voltado para a drugstore? Selena deu meia-volta e retornou  loja. Entrou correndo e viu que o balco de lanches estava vazio. Passava 
das 5:00h, e depois dessa hora, eles o fechavam. Andou por entre os corredores, mas nada. Perguntou ao farmacutico se ele havia visto sua av. No vira. A mulher 
que estivera no caixa j sara. Agora, quem estava ali era uma jovem. Disse que pegara servio havia dez minutos e no vira nenhuma senhora idosa, parecida com a 
descrio que Selena lhe dera.
      - Obrigada, disse a garota.
      Teve de reconhecer que agora s lhe restava mesmo ir para casa, contar aos pais e ligar para a polcia. Era impossvel descrever o que sentia naquele momento. 
Seus pais sempre a repreendiam pelo fato de ser descuidada e viver perdendo pertences importantes, como seu passaporte, por exemplo. Como poderia encar-los e dizer-lhes 
que agora no sabia do paradeiro de V May?
      Sentia-se como que dormente por dentro, da cabea aos ps. Achou a volta longa demais. Parecia que nunca iria chegar. Ao entrar na rampa da garagem, nem sentiu 
o impacto da pequena lombada que havia no meio-fio. Quando girou a chave para desligar o carro, os dedos tambm estavam dormentes. Teve a impresso de que, se tivesse 
batido a porta no p, no momento em que a fechara, nem iria sentir nada.
      As palavras lhe corriam pela mente com uma impresso dolorosa. Cada uma delas parecia produzir uma dor intensa, quase fsica. Recordou-se de que se sentira 
assim uma vez, quando tinha sete anos. Trouxera para casa um ramo de flores silvestres. Ao tentar tirar do armrio um vaso da me, deixou-o cair e ele se quebrou. 
Conseguira ajuntar os cacos com uma vassoura, sem se cortar, e os pusera num saco de papel. Depois levara o embrulho para a garagem e o deixara ali. Resolvera que 
iria confessar o erro para a me aps o jantar. Foi o jantar mais triste de sua vida.
      Hoje, porm, no dava para deixar para depois do jantar.
      Subiu a escadinha da entrada de dois em dois degraus. De repente, conscientizou-se de que a questo principal no era o erro que cometera nem o castigo que 
receberia por haver se afastado de V May. O mais importante agora era a segurana da av.
      - Me! gritou ela, entrando pela porta da varanda. Pai!
      - Estamos aqui, replicou a me em tom calmo.
      A voz viera da sala.
      - Me, eu...
      Selena entrou correndo, mas parou abruptamente. V May estava sentada no sof, s e salva. A me se achava ao lado dela, e o pai, do outro. Os trs fitavam 
a garota com uma interrogao no olhar, aguardando uma explicao.
      - A senhora est bem? perguntou ela, correndo para a av e segurando as mos dela. O que foi que aconteceu?
      -  o que nos queremos saber, interps o pai. O Sr. Estevo a trouxe para casa.
      - Sr. Estvo? Por qu? indagou a garota olhando para o pai, depois para a av e em seguida para a me.
      - Ele disse que ela estava sentada l, sozinha, e ficou preocupado, explicou Harold Jensen, fitando a filha com ar severo. Aonde voc foi? V May disse que 
voc tinha ido ao banheiro, mas demorou muito. Ento ela foi l para ver o que estava acontecendo, mas no a encontrou. Voltou ao balco de lanches e ficou a esper-la, 
mas voc no apareceu.
      Selena bateu a mo na testa.
      - O banheiro! exclamou. Claro! Foi o nico lugar em que no olhei.
      A me inclinou-se para a frente.
      - Selena, disse ela, isso  muito srio. Aonde voc foi?
      - No fui ao banheiro, no. Fui ao balco de medicamentos, s uns minutinhos. Amy tinha ido l, e fui conversar com ela. Achei que era a nica oportunidade 
que teria de acertar tudo. Conversamos alguns minutos e, em seguida, voltei para o balco de lanches. A V May tinha desaparecido. Eu e a Amy a procuramos pelo 
bairro todo, eu no meu carro e ela no dela.
      - Enquanto isso, sua av ficava l sentada, sozinha, durante quase uma hora, falou o pai.
      - Sinto muito, v, disse a garota, olhando para a senhora e apertando-lhe de leve as mos.
      V May tinha uma expresso de quem no est entendendo nada.
      - Minha inteno no era largar a senhora sozinha l, no, continuou Selena. Achei que tinha sado.
      - E por que eu iria sair? Pensei que voc estava tendo algum problema no banheiro, quando na verdade tinha desaparecido.
      - , eu sei. Me desculpe, v. Isso no vai acontecer mais.
      - , interveio a me, voc no vai mais fazer isso.
      A voz dela tinha um tom de desalento. Selena sentiu-se pssima. A me quisera "descansar" de V May por algumas horas, mas no pudera. Selena acabara trazendo 
mais aflio para todos eles.
      - Estou muito chateada de ter feito isso, disse.
      Ela detestava quando aconteciam fatos assim. Tudo parecia to simples! Iriam apenas dar uma chegada  drugstore Eaton's e fazer um lanche. De repente, ela 
v uma chance de conversar com Amy. No fim, tudo acabou virando contra ela.
      - No fique preocupada, no, disse V May, soltando a mo da neta e afastando uma mecha de cabelo louro do rosto aflito da garota. Tudo j acabou e agora estamos 
aqui ss e salvas.
      - Quer que eu leve o jantar pra senhora l em cima? indagou Selena. Quem sabe uma sopa bem gostosa!
      Nesse instante, percebeu que estava inclinando a cabea e empregando o mesmo tom de voz com que falara na loja. Era o jeito como a av lhe falava quando era 
criana.
      - timo!  o que eu quero, replicou V May, levantando-se para subir para o quarto.
      Selena mordeu o lbio inferior. Outra vez a av dissera a palavra "quero", quando a garota desejava tanto que ela falasse "queridinha".
      - Isso tudo  muito srio, disse a me assim que a senhora saiu. Muito mais srio do que voc pensa. Afinal de contas, em que voc estava pensando?
      - J disse, me. Vi a Amy l e achei que poderia conversar com ela um pouquinho.
      - No se pode deixar a V May sozinha assim. Nem por um minuto. Voc sabe disso.
      - Sei e reconheo que errei. Me perdoe.
      - Tenha calma com a menina, Sharon, disse o pai, batendo de leve no brao da esposa. Afinal, tudo acabou bem.
      - Desta vez, sim; mas, e da prxima?
      - Vamos tomar providncia para no haver uma "prxima vez", respondeu ele em tom calmo, tranquilizador.
      A me de Selena soltou um suspiro profundo, de quem est se controlando h muito tempo.
      - Se fosse fcil assim, Harold, at que seria bom, disse. Voc no sabe como  isso aqui, concluiu, levantando-se e caminhando para a cozinha.
      - O que voc quer dizer com isso? Como no sei? indagou ele, indo atrs dela. Tambm moro aqui. Ela  minha me. Conheo bem essa situao.
      Selena pensou em ir atrs deles. Sempre que causava algum problema para os pais, tinha o impulso de fazer algo "para eles". Obviamente, queria compensar o 
erro cometido, prestando favores aos dois. Contudo achou melhor continuar por ali, polo menos durante alguns instantes, e deixar que eles conversassem a ss. Daria 
uns cinco minutos de intervalo e depois iria preparar a sopa da av. Alis, era um prato bem adequado para quem estivesse doente ou aborrecido, no era? Entretanto 
reconhecia que nenhuma sopa serviria para faz-los sentir-se melhor nessa noite.
      

Captulo Dezesseis
      
      Poucos minutos depois que os pais saram da sala, o telefone tocou.
      - Selena, gritou a me,  pra voc!
      A garota entrou na cozinha e pegou o telefone sem fio na mo da me. Em seguida, dirigiu-se para a despensa, a fim de pegar uma lata de sopa.
      - Al! disse.
      - Selena,  Amy!
      Parou de procurar a lata e se ergueu.
      - Oi, Amy!
      - Eu queria saber notcia de sua av.
      - Ela est bem. Quando cheguei, ela j estava aqui. Um vizinho nosso trouxe-a de volta. Voc no vai nem acreditar. Enquanto a procurvamos pelo bairro todo, 
ela estava no banheiro.
      Houve uma pausa, mas logo em seguida a amiga deu uma risada. Era to bom ouvi-la rindo de novo.
      - E voc achando que ela estava vagando pela rua, meio confusa, n?
      - . Nem pensei em procurar no banheiro.
      -  Ela est bem?
      - Creio que sim.
      Selena ps a mo em concha sobre o bocal e continuou:
      - Mas os meus pais esto muito irritados.
      Os dois ainda estavam na cozinha, discutindo sobre a condio de V May.
      - Eu s queria saber como sua av est, disse Amy aps uma pequena pausa.
      - Gostei muito de voc ter ligado, disse Selena. Muito obrigada.
      - E queria lhe dizer tambm que gostei de saber que voc tentou telefonar pra mim e que veio me ver. Eu no sabia nada disso e acho que tirei concluses apressadas.
      Selena fechou a porta da despensa e acendeu a luz. Era meio apertadinha, mas queria ficar ali sem interrupes. Nada deveria atrapalhar aquele momento que 
ela tanto desejara.
      - Ah, eu tambm tirei algumas concluses apressadas sobre voc; e sei que no fui muito justa.
      - Mas ainda mantenho o que disse, Amy apressou-se a explicar. No quero discutir minha vida com voc.
      - 'T bom.
       No sou como voc, Selena, continuou a outra. Em alguns pontos, somos parecidas, sim. E acho que foi isso que nos fez aproximar uma da outra no ano passado. 
Mas no tenho as mesmas idias suas. Acho que nunca tive. Eu apenas tentei me ajustar ao seu jeito, sabe? Entretanto no quero que ningum tenha essas expectativas 
a meu respeito.
      - Amy...
      - No comece a pregar pra mim, no. Se comear, desligo.
      - No. S quero dizer que est tudo bem, interveio Selena prontamente.
      A colega no desligou.
      - Ento, vamos recomear a partir daqui, prosseguiu Selena.  s isso que quero dizer. Gosto de voc, Amy, e quero que a gente continue como amigas, conversando 
de vez em quando. E o que voc quiser est bom pra mim. Apenas no quero que a gente fique tratando uma a outra friamente s porque, nos ltimos meses, mudamos um 
pouco. Alis, eu tambm mudei.
      A outra no respondeu, mas Selena percebia que ela ainda estava ao telefone.
      - Assim est bem, disse afinal.
      - Sabe, Amy, voc me deu uma fora e me ajudou a procurar minha av. S uma amiga de verdade faria isso. Acho que no precisamos tentar ser amigas. Ns j 
somos.
      - A questo  que no estou acostumada a ter amizades muito duradouras, explicou Amy. Geralmente, fico algum tempo com algum e depois passo pra outra. Arranjo 
outros amigos. Ento no vou garantir nada de minha parte. No farei nada pra nanter nossa amizade. Mas tambm no vou "p-la no gelo", no, 't?
      Selena teve a sensao de que lhe haviam tirado um peso dos ombros.
      - Talvez essa situao seja como voc me disse um tempo atrs, comentou Selena, encostando-se  parede. Como foi mesmo que voc falou? Ns circulamos em rbitas 
diferentes, que vez por outra se cruzam. Mas pode ter certeza de que, quando elas se cruzarem, estarei s suas ordens para o que precisar, como voc esteve hoje 
comigo, procurando a V May.
      - Obrigada, Selena, disse a outra num tom emocionado. Muito obrigada mesmo. E eu tambm estarei s suas ordens, desde que no tenha expectativas muito elevadas 
a meu respeito.
      - Espero que tudo corra bem pra voc na outra escola.
      - Obrigada.
      - Ainda est trabalhando no restaurante do seu tio?
      - Estou.
      - Ento um dia desses talvez eu d uma chegadinha l.
      - , pode ser.
      - Bom, ento uma hora dessas em que estiver chateada, ou sem ter o que fazer, ligue pra mim, o.k.? Provavelmente estarei por aqui mesmo.
      - Obrigada. Depois a gente se v.
      - Tchau, Amy!
      Selena desligou e apoiou a cabea na parede. Em seguida, deu um suspiro de alvio. A conversa no fora exatamente como ela queria - uma abrindo o corao para 
a outra - nem terminara do jeito que ela esperara. Contudo fora muito bom que tivessem conversado. Agora, pelo menos, sentia que a tenso havia acabado.
      O que a preocupava mais fora o que Amy dissera sobre suas "idias". Que ser que ela quisera dizer ao afirmar que no tinha as "mesmas idias" de Selena e 
talvez nunca houvesse tido? Ser que se referia ao pensamento de Selena sobre namoro? Ou seria sua crena em Deus? O que de fato se passava no coraco da amiga? 
A garota compreendeu que a outra no lhe abrira o corao. Portanto no poderia "entrar" nele. Contudo poderia "visit-lo" de vez em quando. Por agora, teria de 
contentar-se com isso.
      Abriu a porta da despensa e saiu. Os pais j tinham ido embora da cozinha. Ser que ainda estavam discutindo sobre a V May? Ou ser que j haviam resolvido 
a questo, assim como ela e Amy tinham solucionado a sua? Achou que, por enquanto parecia que tudo se arranjara. Na prxima vez em que ocorresse um problema com 
a av, no havia dvida de que o assunto voltaria a ser discutido. Isso significava que ela teria de tomar muito cuidado para no ser a causadora de nenhum conflito 
entre os pais por causa de V May.
      Pegou uma lata de minestroni e derramou a sopa numa panela, pondo-se a preparar uma bandeja para levar  av.
      - Que dia! disse consigo mesma.
      Deu uma olhada para o relgio e percebeu que no daria mais para ir  reunio dos jovens. A me iria comear a fazer o jantar a qualquer momento, e seria bom 
se pudesse ajud-la. Se fosse  igreja, no teria muito tempo para fazer os trabalhos da escola; e tinha muito dever de casa. Lembrou-se de que falara com Vicki 
que iria  igreja. Era melhor ligar para a amiga. Telefonaria depois que levasse a sopa para V May.
      O resto da noite transcorreu tranquilamente, o que foi timo para Selena. Ela ajudou a me a preparar o jantar e a arrumar a cozinha. Parecia que tudo estava 
calmo e voltara ao normal, tanto no que dizia respeito aos pais, como a V May.
      Passava das 8:00h quando Selena se dirigiu ao escritrio, carregando a mochila, com a inteno de trabalhar nos deveres escolares. Ligou o computador e deu 
uma verifiada no email. Havia quatro mensagens para o pai, uma do Wesley (seu irmo mais velho) para a me, e mais duas que eram anncios. Paul no enviara nada.
      Lembrou-se da amiga, Cris Miller, que estava estudando na Sua. Ser que ela teria um e-mail? Recordou-se de que vira computadores na biblioteca da escola. 
Era bem provvel que a jovem pudesse receber mensagens. Se ao menos soubesse o endereo eletrnico! Contudo sabia o postal. Resolveu escrever a Cris, pedindo o seu 
e-mail. Isso significava que teria de enviar outra carta para o exterior e aguardar pelo menos uma semana para receber a resposta.
      Era horrvel ter de esperar! Era pssimo ter de aguardar vrios dias, e at semanas, uma carta do Paul. Tantos fatos novos haviam acontecido depois que ela 
lhe escrevera! A vida estava passando  velocidade da... bom, da vida mesmo. Essa vagarosa correspondncia com o rapaz e as demoradas respostas dele no estavam 
acompanhando o ritmo dos acontecimentos.
      Parou de digitar seu recado para Cris e se ps a olhar pela janela, para a noite escura.
      Que ser que Paul est fazendo agora? Ser que est na aula? Ou estudando? Caminhando pelas montanhas de que tanto gosta? Ser que est pensando em mim? E 
o que ser que est pensando?
      "Oh, Pai, fico to feliz de saber que o Senhor est em toda parte, ao mesmo tempo! Por favor, Pai, envolve o Paul com teus braos amorosos onde ele estiver 
e o que quer que esteja fazendo. Que ele possa sentir o quanto tu o amas e o quanto te interessas por tudo que lhe diz respeito. Dirige-o em seus estudos, para que 
se esforce ao mximo e aprenda tudo aquilo que lhe ser proveitoso futuramente. Prepara-o para a obra que o Senhor determinou para ele. Guarda-o, Senhor, em segurana. 
Peo-te que ele tenha bons amigos e que passe momentos maravilhosos com a av. Fortalece-o interiormente, Pai. Obrigada, meu Deus, por estares ouvindo minhas peties 
e respondendo-as na hora certa, da maneira que queres. Eu te amo, Pai. Amm."
      Selena sorriu consigo mesma. Fazia j vrios meses que orava por Paul. No incio, ao fazer essas oraes, experimentava uma emoo bem diferente da que sentia 
agora. Antes, ao orar por ele, ao lutar por ele, com sussurros, na presena de Deus, fazia-o por obedincia a uma ordem do Senhor. Sentia-se impelida a interceder 
pelo rapaz. Agora que estavam se correnpondendo, porm, tudo mudara. Ao ler as cartas dele, tinha a impresso de que estava vendo um "pedacinho" do corao de Paul. 
Tendo aprofundado o relacionamento com ele, era bem mais "gostoso" orar. Experimentava uma maravilhosa sensao de calma e contentamento. Era impressionante como 
duas simples cartinhas podiam expandir um relacionamento assim, inundando-o de calor humano.
      Recordou-se de que Vicki dissera que a Bblia era a carta de amor que Deus enviou a todos ns.
      Como eu poderia ter comunho com Deus se no tivesse essa carta de amor? O que eu pensaria a respeito dele? Como conversaria com ele?
      Mais uma vez olhou para fora e ficou meditando nessa questo. Nunca havia pensado nisso antes.
      Deus escreveu na Bblia tudo o que queria nos dizer. E posso ler a mensagem dele a hora que quiser.
      Nesse momento, recordou-se das crianas refugiadas que moravam no orfanato que ela e a Cris haviam visitado na Sua.
      Ser que elas j ouviram falar da Bblia? Ser que algum j lhes disse o quanto Jesus as ama? E como deve ser difcil para elas acreditar nisso, depois de 
tudo que passaram!
      Voltou  carta para Cris e, escrevendo rapidamente, abriu o corao para a amiga.
      "Ocorreu me, agora, que o que voc est fazendo na Sua, trabalhando com as crianas do orfanato, tambm  um servio para Deus. Quando estive a, no o enxerguei 
dessa forma. Mas agora est bem claro para mim. Se algum no lhes falar de Deus, como  que elas crero nele? Se no ouvirem a leitura da Bblia na lngua delas, 
como ficaro sabendo a respeito de Deus? Aqui em nosso pas, a gente tem tantas facilidades que acho que nos esquecemos de que, em outros lugares do mundo, o povo 
no tem a liberdade e a oportunidade de sentar e ler a Bblia na hora que quiser."
      A essa altura, teve de parar. Seus olhos haviam se enchido de lgrimas, e ela estava enxergando tudo embaado.
      Por que ser que nunca pensei nisso antes? Existe muita gente em todo o mundo que no tem um exemplar da Palavra de Deus em sua prpria lngua!
      Era to estranho ficar emocionada daquela forma, assim, de repente! Havia anos que escutava os missionrios dizerem aquilo. Ela prpria j fizera uma viagem 
evangelstica e tambm visitara, junto com a Cris, aquele orfanato da Sua. Contudo nunca enxergara esses fatos da maneira como os via agora. A Bblia  a carta 
de amor que Deus enviou ao mundo. No entanto havia muita gente que nunca a tinha recebido nem lido.
      Selena afastou-se da mesa e limpou as lgrimas com as costas da mo. Saiu correndo do escritrio. Subiu as escadas apressadamente e entrou em seu quarto. Como 
sempre, estava uma confuso geral. Sabia bem onde estavam todas as cartas de Paul, que recolocara no envelope original. Dias atrs, atara-as com uma fita de veludo 
preta, um pedao de uma gargantilha que se arrebentara. Elas se achavam bem seguras, guardadas debaixo do travesseiro. Enfiou as mos ali e, de fato, todas estavam 
l, bem ajeitadinhas.
      Resolveu procurar a Bblia no meio de toda aquela baguna. Olhou entre umas roupas sujas que se achavam a um canto. Chutou um sapato que estava no caminho. 
Lera-a dois dias atrs e a colocara no cho junto com o livro de Cincias. Contudo o assoalho no era o lugar certo para se deixar uma Bblia, principalmente o do 
seu quarto. Lembrou-se de que, tempos atrs, havia amassado uma carta de Paul e a jogara para um lado descuidadamente.
      Afinal encontrou a Bblia, debaixo de uma toalha de banho. Selena pegou-a e ficou a olh-la de perto.
      - Nunca mais vou fazer isso, sussurrou para si mesma. Dirigiu-se para a mesinha-de-cabeceira, ao lado da cama. Tirou dela uns copos vazios e pratos com migalhas 
de biscoitos. Em seguida, colocou a Bblia ali, bem sob o abajur.
      Todas as cartas de amor so tesouros preciosos e merecem ficar num lugar de honra.
      Sentindo que algo mudara em seu interior, embora no soubesse bem por que, Selena saiu e desceu de volta para o escritrio. Estava decidida a terminar os trabalhos 
escolares o mais rpido possvel. Esperava no ficar com muito sono, para que pudesse ler a Bblia antes de dormir.
      

Captulo Dezessete
      
      Quinta-feira, ao final das aulas, havia um grande grupo de alunos perto da caminhonete de Ronny. Todos falavam ao mesmo tempo. Conversavam a respeito da deciso 
da diretoria e sobre o que poderia acontecer ao colega, com relao ao cabelo dele.
      - Ele ainda est l conversando, disse Tyler, que se aproximava correndo. Talvez demorem bastante.
      Selena deu uma espiada no relgio.
      - , vou ter de ir trabalhar, falou para Vicki. Como cheguei tarde no sbado, no quero me atrasar hoje.
      - Quer que eu passe por l pra lhe contar o que aconteceu? indagou a colega.
      - Faz esse favor pra mim, respondeu Selena, dando um sorriso de gratido. Assim vai ser timo! Depois a gente se v ento.
      Foi abrindo caminho por entre o grupo ali aglomerado e seguiu apressadamente para o carro. Conversara com Ronny na hora do almoo e ele lhe dissera, tranquilamente, 
que estava pensando muito em algo que o lder dos jovens mencionara na noite anterior, na reunio da igreja. Ele no explicara o que o homem falara, mas informara 
apenas que era em Romanos 14. Em sua leitura bblica, Selena ainda no chegara a esse texto.
      Enquanto rodava pelas ruas em direo ao Mother Bear, ia pensando em como aquele incidente assumira propores exageradas. Ao que parecia, no havia uma soluo 
que pudesse agradar a todos.
      Chegou ao trabalho alguns minutos antes da hora. E isso foi muito bom, pois a confeitaria estava lotada. Imediatamente, algum a chamou para ajudar a servir. 
Ento entrou logo em ao, preparando caf para um grupo de mulheres que estavam em volta do balco. Teve a impressao de que estavam todas juntas, e muito alegres 
de estar ali reunidas. Uma delas trazia um beb no colo, uma criana bem gordinha. Todas falavam ao mesmo tempo.
      Uma delas, uma senhora alta, de cabelo louro-avermelhado, chamou Selena. Tinha no rosto uma expresso de curiosidade.
      - Qual  a diferenaa entre todos esses tipos de caf? indagou para a garota. Na minha terra, no temos essa diversidade toda.
      - Ah! E de onde voc ?
      - Da Holanda. L caf  s caf, e no um acontecimento especial, como parece que  aqui, explicou a mulher sorrindo.
      Selena retribuiu o sorriso e foi explicando para ela como era cada um dos tipos de caf que havia no menu. A holandesa ouviu-a atentamente e depois disse:
      - Ah, obrigada, entendi. Quero s uma xcara de caf puro, por favor.
      A garota pegou a xcara, despejou nela o lquido e o entregou  mulher.
      - Quanto , ento? indagou a cliente.
      - Nada, replicou Selena.  por minha conta. Bem-vinda  nossa terra. Espero que passe momentos bem agradveis aqui!
      O rosto da mulher abriu-se num sorriso de satisfao.
      - Ah, muito obrigada! Que gentileza!
      Ela se afastou, indo sentar-se com as amigas numas mesas que estas haviam ajuntado. Selena pegou uma nota no prprio bolso e introduziu no caixa.
      - Por que voc fez isso? indagou Jody, sua colega de trabalho. Agora todas elas vo querer caf de graa!
      - Ser? contestou a garota. Acho que no. J que no posso dar um copo de gua fria a um desconhecido em nome de Jesus, posso oferecer uma xcara de caf puro, 
bem quentinho.
      A outra abanou a cabea.
      - No entendi nada do que voc disse, replicou.
      - Tive vontade de acolher um anjo, concluiu Selena.
      Jody virou-se e foi andando em direo ao fundo da loja.
      - Vou l atrs e, quando voltar, espero que voc esteja falando nossa lngua de novo.
      Selena se ps a limpar o balco com um pano de prato limpinho e quente. Sorriu consigo mesma, ouvindo o grupo de mulheres conversando e rindo. Pelo jeito, 
era um encontro de colegas de escola. Naquele instante, a porta da confeitaria se abriu e entrou uma moa pequena, vestida com elegncia. As outras soltaram gritinhos 
de alegria e vrias se levantaram para abraa-la.
      Observando-as, a garota comeou a pensar em como era bom ter amigos, diversos tipos de amigos. Estava to satisfeita de ter tido aquela conversa com Amy. Era 
timo tambm que agora ela e Vicki estivessem aprofundando seu relacionamento. E Ronny tambm era um bom amigo, o melhor que ela poderia ter. Alm disso, apreciava 
muito a amizade que tinha com Cris e as outras colegas dela. Todas a tratavam muito bem e no a depreciavam pelo fato de ser mais nova que elas. Ademais, tinha ainda 
muitos amigos em Pineville, a cidade onde morara.  verdade que no se mantivera em contato com eles, como deveria ter feito. Entretanto sabia que, se voltasse l, 
eles ficariam alegres de rev-la. Era bem provvel que renovassem a amizade, reiniciando-a do ponto em que haviam parado.
       E agora, Paul. Como deveria ver o Paul? Como um amigo? Um bom amigo? Mais que amigo? E o mais estranho era que aquilo no lhe importava muito. Nesse momento, 
no. Por agora, seu relacionamento era apenas uma simples correspondncia. Nada mais, nada menos. Estava trocando cartas amistosas e bastante interessantes com um 
rapaz maravilhoso. Era s o que precisava saber por enquanto.
      Jody voltou com um tabuleiro cheio de pes de canela fresquinhos, assados na hora. Selena respirou fundo para sentir o delicioso cheiro.
      - Acho que vou comer um desses, comentou.
      Vez por outra, ela tinha a sensao de que no agentaria comer um daqueles pezinhos, pois estava enfarada do cheiro deles. Contudo, hoje, a idia lhe pareceu 
agradvel.
      - Uns amigos meus vo dar uma passadinha aqui, disse para a colega. Voc se importaria se eu fizesse um intervalo pra lanchar, quando eles chegarem?
      - De modo nenhum, desde que voc no comece a dar pezinhos de graa pra todo mundo.
      - Ah, no. Eu paguei o caf daquela moa. Voc viu, n?
      - , vi.
      Jody trocou o coador de papel da mquina. Em seguida, apontou para o bule de lquido fumegante e disse:
      - D um giro por a e serve mais caf pra quem desejar.
      A garota pegou a vasilha e aproximou-se do grupo de mulheres.
      - Algum quer mais caf? indagou.
      - Eu aceito, obrigada! disse a holandesa.
      Uma outra senhora ergueu a xcara.
      - Quer arranjar mais leite para ns? O que estava aqui acabou.
      Selena saiu para pegar outra leiteirinha. Nesse instante a porta se abriu, e Ronny e Vicki entraram na confeitaria. A garota virou-se e, ao v-los, ficou toda 
empolgada. Estava ansiosa para saber qual fora a deciso acerca do cabelo do colega.
      - Oi, Johnny! gritou para ele, trocando o nome dele em tom de brincadeira.
      Uma das mulheres, que estava sentada  mesa, ouviu-a cham-lo e disse em voz alta:
      - Ei, gente,  o Johnny!
      Todas cairam na gargalhada, os olhos fitos em Ronny.
      - Desculpe, interveio uma delas depois de alguns instantes. Isso  uma piadinha nossa. "Johnny"  o nome que demos ao nosso heri imaginrio.
      O rapaz deu um dos seus sorrisos caractersticos, entortando os lbios, e levou a brincadeira na esportiva.
      - Querem comer algo? indagou Selena para os amigos. Vou j me sentar com vocs.
      Levou a leiteira para a mesa das mulheres e uma delas falou:
      - Desculpe se constrangemos seu amigo. Quando a gente se ajunta, fica meio amalucada!
      - Foi nada no. Ele entende bem essas brincadeiras.
      Em seguida, voltou ao balco. Jody j servira um pozinho de canela para Ronny e uma xcara de ch de ma para Vicki. Os dois foram se sentar a uma mesa prxima 
da porta. Selena ento pegou um pozinho e um copo de leite e foi se juntar a eles.
      - Gente, tenho um intervalo de quinze minutos para o lanche, explicou, dando uma dentada no pozinho e limpando a calda de acar que lhe escorria no canto 
da boca. Ento me contem logo o que aconteceu.
      Ronny deu de ombros, como sempre fazia.
      - Ainda no sei o que vou fazer, disse.
      - Mas voc no se reuniu com o PC? perguntou Selena.
      - , eles conversaram comigo, mas no me deram uma resposta definitiva. Disseram que, por causa de minha carta, decidiram estudar melhor o modo como vo resolver 
os problemas na escola. Falaram que, como encarei a questo de maneira to madura, iriam deixar a deciso em minhas mos.
      Selena olhou para Vicki, que fez um aceno de cabea como quem diz que tambm est espantada. A garota sabia como Ronny ficava aborrecido quando seus pais deixavam 
uma deciso qualquer por conta dele. Agora a junta diretora fazia o mesmo. O colega devia estar se sentindo agoniado.
      - Voc precisava ter visto a turma reunida l no estacionamento, comentou Vicki. Parecia que tinham conquistado uma grande vitria. Eles esto garantindo que 
o Ronny no vai cortar o cabelo.
      - Mas voc ainda no sabe se  isso mesmo que quer, afirmou Selena, olhando para o rapaz e tentando adivinhar seu pensamento.
      - Tenho de analisar bem minhas razes pra deixar o cabelo comprido, explicou ele. Disse a eles que o motivo era que eu queria me sentir ajustado em meu grupo 
social e ser aceito pela banda. Mas sabe o que mais? Pensando bem, nenhum dos caras da banda est se importando muito com isso. Entre os msicos, ningum quer nem 
saber se meu cabelo  curto, comprido ou se eu rapei a cabea. S o pessoal da junta  que est se preocupando com isso. Acho que, na realidade, no tenho uma razo 
muito forte para deix-lo assim, no.
      - Mas Ronny, interps Vicki, eles lhe deram liberdade para fazer o que quiser! No entendo por que voc simplesmente no deixa o cabelo crescer e fica feliz 
de eles terem compreendido sua posio.
      - Esse  que  o problema, replicou o rapaz. No sei se tenho mesmo uma posio.
      - Ento agora  um bom momento pra definir isso, diss Selena, dando uma espiada no relgio.
      Sentiu uma leve irritao ao constatar que seu intervalo j estava pela metade.
      - Ser, continuou ela, que no d pra simplesmente esquecer tudo e acabar com essa confuso?
      - No sei.
      Vicki abanou a cabea.
      - Tem gente l querendo derrubar o presidente da associao estudantil e botar o Ronny no lugar dele, disse. Eles argumentam que ele conseguiu dobrar a diretoria 
e agir da maneira que os alunos querem, isto , deixando os estudantes tomarem as decises.
      - No quero por nenhum tropeo pra ningum por causa disso tudo, explicou o rapaz.  o que diz aquele versculo de Romanos que mencionei pra voc, Selena. 
O Shawn falou sobre ele ontem  noite.
      - , eu me lembro, interveio Vicki.
      - Que versculo era? perguntou Selena.
      Ela estava se sentindo muito frustrada pelo fato de no estar por dentro do tal versculo; e mais chateada ainda por ver que s faltavam trs minutos para 
se encerrar seu horrio do "caf".
      - Diz mais ou menos que devemos viver em paz com todos, explicou Ronny. Vou fazer aquilo que for contribuir pra que haja paz na escola, e no diviso.
      - Tenho de ir trabalhar, disse Selena, empurrando para o colega o pozinho de canela que mal comera. Quer o resto?
      Ela se levantou e passou o brao pelos ombros dele.
      - Tenho certeza de que vai tomar a deciso mais acertada, concluiu.
      Ronny ergueu os olhos para fit-la e fez um movimento rpido com as sobrancelhas, demonstrando dvida.
      - E como  que voc sabe disso? indagou ele.
      - Porque vou orar por voc, respondeu a garota, sorrindo para o amigo como que o abenoando.
      

Captulo Dezoito
      
      Na quinta-feira  noite, Selena orou muito por Ronny. Alm disso, estudou por um bom tempo. Quando examinava a matria para a prova de literatura que haveria 
no dia seguinte, viu um texto sobre Emily Dickinson. Leu-o avidamente, querendo saber mais sobre essa mulher que havia escrito um poema sobre os "Alpes imortais" 
e falara sobre "espiar pela fechadura" de uma carta especial. Contudo, o que leu deixou-a perplexa.
      "Quando criana, Emily frequentou a Primeira Igreja Congregacional, de Amherst, sua cidade natal. Em meados do sculo XIX, houve um grande avivamento na cidade, 
e toda a sua famlia aderiu a ele, menos Emily. Quando estava com quase trinta anos, parou de ir  igreja. Emily tinha poucos amigos e passava a maior parte do tempo 
sozinha, no solar da famlia. Morreu aos 56 anos de idade."
      Selena ergueu os olhos do livro, sentindo uma profunda tristeza. Pelo que Emily dizia em algumas de suas poesias, ela tinha um grande respeito por Deus. Num 
de seus poemas, falara como ele cuida dos pardais e os alimenta. Em outro, referiu-se a Cristo como "Senhor", e em outro mencionava o "amor do Calvrio".
      Por que motivo, ento, teria ela parado de ir a igreja? O que ser que havia acontecido? Como seriam seus amigos? Ser que a haviam condenado? Ou a tinham 
amado?
      Nesse momento, Selena tomou a firme deciso de que continuaria amiga de Amy, no importava o que acontecesse. Jamais deixaria sua amizade esfriar, como se 
ela no lhe fosse importante. Pensou ainda no relacionamento com Paul. Ser que tambm continuaria amiga dele, qualquer que fosse sua situao? Esperava que sim. 
Sua amizade com Ronny era assim. Por que com Paul seria diferente?
      S terminou os deveres da escola por volta de 10:00h. Assim que se deitou, pegou a Bblia e abriu em Romanos 13. Queria terminar esse captulo e chegar ao 
14, onde, dissera Ronny, estava o versculo que falava sobre esforar-se para ter paz com todos.
      E afinal demorou um pouco para concluir o 13. Esse captulo falava sobre termos a atitude correta para com as autoridades. Parecia aplicar-se perfeitamente 
aos acontecimentos da semana interior na escola. E se encaixava bem na situao porque seu colega tomara umaposio acertada, dizendo  junta diretora da escola 
que acataria a deciso deles, fosse ela qual fosse.
      Assim que leu o 14, entendeu por que Ronny estava tendo dificuldade para tomar uma deciso. O apstolo Paulo deixava bem claro que nem sempre a soluo melhor 
 aquilo que julgamos acertado. A grande prova do amor que Deus ordena que tenhamos uns para com os outros implica ter considerao para com as fraquezas de nosso 
prximo. Temos de levar em conta aquilo que pode ser uma dificuldade para ele, em sua vida crist.
      Selena estava lendo com tanto interesse que terminou o 14 e passou ao 15. Chegando aos versculos 5 e 6, pegou uma caneta e sublinhou-os. Leu-os em voz alta, 
riscando-os com uma rgua.
      "Ora, o Deus da pacincia e da consolao vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis 
ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo."
      Embora j fosse quase 1l:00h da noite, saltou da cama e foi p ante p ao corredor, onde pegou o telefone. Levou-o para o quarto e, enfiando os ps frios debaixo 
das cobertas, discou o nmero de Ronny. Na segunda vez que tocou, o rapaz atendeu.
      - Oi! Estava dormindo?
      - Gostaria de estar, respondeu ele.
      - Encontrei um versculo sensacional, disse Selena. Escute aqui.
      A garota flexionou as pernas e colocou a Bblia sobre os joelhos. Em seguida, ps-se a ler os versculos, acompanhando com a ponta do dedo.
      - Entendeu essa questo de ter "o mesmo sentir de uns para com os outros"? indagou a garota.  disso que estamos precisando na escola, e no de uma revoluo. 
Precisamos nos unir e falar "a uma voz". S assim daremos testemunho de Cristo para nossa comunidade. Precisamos ter um esprito de unidade.
      - Leia o verso de novo.
      Ela leu. Pelo telefone, ouvia o barulho que o rapaz fazia passando as pginas.
       Selena, disse ele, falando pausadamente, voc tem razo. Voc est mil por cento certa. Pode me fazer um favor amanh?
      - Posso. O que quer que eu faa?
      - Quero que, na hora do culto dos alunos, voc leia esse texto.
      - O qu?
      - O Prof. Alfred pediu que eu desse uma palavra amanh no culto, e aceitei, j que esse meu problema teve muita repercusso. Mas acho que vou chegar atrasado.
      - Como assim?
      - Amanh lhe explico. Faz um favor pra mim. Assim que voc chegar  escola amanh, diga ao Prof. Alfred que eu lhe pedi pra falar em meu lugar, t? Vou chegar 
assim que puder.
      Ronny, que era sempre to cordato e vivia dizendo: "Como queira!", "Tudo bem!", " 'C que sabe!", de repente se mostrava todo animado. Selena estava admirada 
de ver o quanto ele estava empolgado.
      - Ser que pode me dar mais alguma informao pra me orientar? indagou.
      - Amanh voc vai compreender tudo, respondeu ele.  s confiar em mim. Selena, voc  sensacional. No imagina como estou alegre de ter me ligado! Fico lhe 
devendo essa.
      - Isso significa que vai pagar um jantar no Tony Roma's pra mim e pra Vicki?
      O rapaz riu.
      - 'T bom! Pago, sim. A gente se v na escola, disse ele, desligando em seguida, sem dar "tchau".
      Selena ficou segurando o fone, olhando para ele, como se o aparelho a tivesse insultado.
      - O que ser que significa tudo isso? perguntou para o telefone mudo.
      Ele no respondeu.
      No dia seguinte, antes de sair para a aula, Selena tentou ligar para o colega novamente. A me dele atendeu e disse que o filho j havia sado. E antes que 
a garota desligasse, ela acrescentou:
      - Oh, Selena, muito obrigada pela ajuda que voc tem dado ao Ronny. Ele disse que, ontem  noite, citou um versculo que esclareceu tudo. Voc no faz idia 
de como temos orado por esse problema!
      - A senhora pode me dizer o que est se passando com ele hoje?
      - Acho que o Ronny prefere que deixemos que ele mesmo conte.
      A garota foi para a escola o mais depressa que podia. Viu vrios alunos parados perto do escaninho de Ronny. Aparentemente, aguardavam que ele chegasse para 
cumpriment-lo por haver derrubado as normas do PC. Uma garota segurava diversos bales cheios. Selena lembrou-se de que, no primeiro dia de aula, essa moa aparecera 
com um piercing na sobrancelha direita. No segundo dia, ela viera com dois brinquinhos nela. A conversa geral era que a junta diretora a tinha mandado embora para 
casa. Depois disso, Selena no a vira mais com os brincos. Hoje ela voltara a usar os dois. Agora estava ali toda empolgada, na expectativa da chegada de Ronny que, 
naturalmente, se tornara seu heri.
      Selena teve vontade de aproximar-se do escaninho e dizer aos colegas que o rapaz s viria mais tarde, mas resistiu ao impulso. Era provvel que eles a enchessem 
de perguntas que ela no saberia responder.
      A primeira aula demorou a acabar. O culto era realizado entre a primeira e a segunda. Ela apressou-se a ir para o salo, para pegar um lugar bem na frente. 
J conversara com o Prof. Alfred, e tudo estava combinado. Vicki veio sentar-se perto dela. O diretor inciou a reunio pedindo que os alunos se levantassem para 
efetuarem a saudao  bandeira. Todos ficaram surpresos, pois ali no havia esse costume. Em seguida, ele orientou a que continuassem de p, pois iriam fazer a 
leitura da Bblia e orar. A professora de Ingls do primeiro ano leu um trecho do Salmo 8, e em seguida o professor de Educao Fsica orou, Foi muito agradvel 
ver os mestres participando do culto e se interessando pela vida espiritual dos estudantes. Selena pensou que seria bom se o Ronny estivesse ali, para ver como as 
sugestes que ele fizera em sua carta j haviam surtido efeito.
      A seguir, o diretor fez alguns avisos de ordem geral e chamou ao pulpito um dos membros da junta diretora que se achava presente. Era um senhor idoso, vestido 
com um terno elegante.
      - Ele  do PC, cochichou Vicki para a colega.
      - E parece ser legal, respondeu Selena tambm sussurrando.
      - Como muitos de vocs sabem, principiou ele, esta semana, um aluno do Royal escreveu uma carta para a junta diretora. Alis, essa carta causou um bocado de 
discusso, o que, diga-se de passagem, foi muito bom. A junta decidiu abrir uma exceo e dar permisso ao aluno Ronny Jenkins para usar cabelo comprido, por causa 
do ministrio dele. Quero avisar ainda que no alteramos nenhuma outra norma do regimento nem faremos a mesma concesso a outros alunos.
      Imediatamente os estudantes romperam em protestos. Selena teve de novo a mesma sensao desagradvel que experimenta dias antes, no estacionamento, quando 
os colegas comearam a expressar o que cada um julgava mais certo. Era como se no salo houvesse uma pequena bola de fogo. Ela se sentia incomodada, sem saber o 
que poderia acontecer em seguida.
      - Estou sabendo que uma estudante vai dizer umas palavras tambm, continuou o homem, consultando um papel que tinha na mo. Srta. Selena Jensen, por favor, 
venha  frente.
      Vicki inclinou-se para Selena e deu um leve aperto no brao dela. A garota pegou a Bblia, sentindo as mos molhadas de suor. Assim que chegou  plataforma, 
um estudante gritou:
      - Isso a, Selena! Todos queremos direitos iguais!
      O homem voltou ao microfone e pediu ordem aos alunos. Depois fez um aceno para a garota para que se aproximasse. Ela abriu a Bblia em Romanos 15, engoliu 
em seco e depois dirigiu-se aos colegas.
      - Ronny pediu que eu lesse pra vocs esses versculos aqui.  Romanos 15.5,6. "Ora, o Deus da pacincia e da consolao vos conceda o mesmo sentir de uns para 
com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo."
      A garota fitou o mar de rostos que a contemplavam. Estava diante do microfone e sentiu que devia explicar por que achava que seria uma tima idia ler esse 
texto para os colegas.
      - Gente, temos de ser unidos. A nica maneira como vamos demonstrar para nossa comunidade que somos verdadeiros crentes e agindo concordemente, isto , tendo 
um s corao e falando todos "a uma voz". No podemos ficar divididos em questes que, na verdade, no so importantes.
      Mal ela acabou de dizer as ltimas palavras, Tyler se levantou. Parecia que ele iria dizer ou fazer algo, mas antes mesmo que comeasse, a porta de trs se 
abriu e entrou um homem. Estava com um bon do tipo usado pelos jogadores de beisebol. Selena achou que no deveria ser ningum da escola, pois o regulamento dizia 
que os alunos no poderiam usar nenhum tipo de chapu nas dependncias da instituio. Alis, era uma norma que muitos contestavam.
      O homem veio apressadamente pelo corredor central, dirigindo-se para o palco. S quando ele chegou perto de Selena foi que esta o reconheceu: era Ronny. Tinha 
na cabea um bon preto, o rabo-de-cavalo saindo pela abertura de trs.
      Assim que o corpo estudantil o reconheceu, comeou a aplaudi-lo. Parecia que ele at marcara um "gol", a favor do "time" dos rebeldes. Alm de derrubar o regulamento 
sobre o comprimento do cabelo, agora, ostensivamente, quebrava o que proibia chapus.
      Selena fitou o colega sem entend-lo. O diretor subiu ao palco em passos apressados e dirigiu-se para o microfone. O rapaz virou-se para a garota e, dando 
um daqueles seus sorrisos caractersticos, disse:
      - Preste ateno!
      Em seguida, falou:
      - Sr. Diretor, colegas...
      O diretor aproximou-se e se postou ao lado dele no plpito. Selena deu um passo para trs. A seguir, porm, percebeu que no precisava mais ficar ali. Ento 
desceu a escadinha e foi sentar perto de Vicki.
      - O que  que ele vai fazer? indagou a amiga. Por que est com aquele bon?
      - Sei la, replicou Selena.
      Comeou a achar que o colega iria fazer alguma loucura, que iria levar seu novo f-clube a aplaudi-lo de p. Se o fizesse, poderia at ser expulso da escola.
      - No faa isso, Ronny, sussurrou ela baixinho. No faa nada do que depois se arrependa pelo resto da vida.
       Selena leu aqueles versculos pra vocs? indagou ele, aproximando-se demais do microfone e provocando um som estridente no aparelho.
      Afastou-se um pouco. O diretor continuou de p ao lado dele, os braos cruzados, olhando para o aluno com uma expresso de "agente secreto". Todos os olhos 
estavam fixos em Ronny, e ento ele recomeou a falar.
      - Pessoal, quero dizer a vocs que, na minha opinio, a lio mais importante que podemos aprender neste ano  atuar unidos. Como diz aquele texto, precisamos 
ter o mesmo sentir, com um esprito de unidade. Na carta que escrevi para a junta, disse que estava deixando o cabelo crescer pra poder me ajustar melhor  comunidade 
musical de Portland, onde minha banda se apresenta. Ali  o meu campo missionrio. Entretanto a verdade  que essas pessoas me aceitam do jeito como sou, independentemente 
de minha aparncia.
      Selena apertou os lbios um contra o outro e continuou atenta. No havia dvida de que todos estavam com a ateno fixa em Ronny.
      - Este  meu ltimo ano, continuou ele. Vou passar apenas mais um ano no Royal. Na verdade, mais nove meses. Quero agradecer ao Prof. Alfred e  junta diretora 
por terem me dado liberdade de tomar a deciso a respeito de meu cabelo. O que decidi foi isto.
      E com essas palavras, ele arrancou o bone da cabea, e ficou ali parado. O auditrio caiu em profundo silncio.
      

Captulo Dezenove
      
      Selena deixou cair o queixo de espanto. Ronny cortara o cabelo, bem curto. No fizera propriamente um corte total, do tipo militar, mas estava bem curto. De 
alguma forma, ele tosara o rabo-de-cavalo e o "pregara" no bon.
      - Quando eu for tocar com minha banda, vou colocar isto, explicou o rapaz, acenando o bon bem no alto. Contudo, nos prximos meses, at o final do ano letivo, 
vou seguir o regulamento do Colgio Royal e manter o cabelo curto, assim.
      E aqui, ele se inclinou para diante e passou a mo esquerda no alto da cabea, remexendo no cabelo.
      - O que quero dizer a todos  que devemos ter unidade. Ser assim que os outros vo saber que somos crentes em Jesus. E pela maneira como agimos que eles vo 
nos reconhecer, e no pela nossa aparncia.
      Houve uma pausa. Todos estavam em silncio, parecendo meditar nas afirmaes e atitudes de Ronny, para resolver se concordariam com ele ou no.
      Selena se levantou e se ps a aplaudi-lo. No estava preocupada com o fato de que talvez ningum a seguisse. A gente tem de dar uma fora para os amigos, e 
naquele instante queria que todo mundo soubesse que ela dava total apoio ao colega.
      Minutos depois, Vicki a imitou. Em seguida, os outros que ostavam na mesma fileira tambm o fizeram. Nem todos os estudantes se ergueram. Selena notou que 
Tyler foi um desses. Num determinado ponto do salo, alguns rapazes haviam se aproximado uns dos outros e estavam murmurando algo. Parecia que debochavam de Ronny, 
por seu gesto dramtico.
      O Prof. Alfred chegou ao microfone. Em seu rosto, estampava-se uma expresso de alvio.
      - Obrigado, Ronny, disse ele. Voc e um timo exemplo de um jovem que possui maturidade crist.
      Aps as aulas, Selena iria escutar essa frase novamente. S que, dessa vez, era dita em tom sarcstico por uma garota que se achava perto do escaninho do Ronny.
      - Olha ali o timo exemplo de um jovem com maturidade crist! disse ela para uma colega ao lado.
      - Puxa, Ronny, a gente estava contando com voc... comentou a outra. Voc nos deixou na mo.
      Selena teve vontade de olhar para elas de cara feia e ir embora. Contudo viu que Ronny se aproximara delas e se pusera a falar-lhes, enfrentando de peito aberto 
seus ataques verbais. Selena achou que, se chegasse perto dos trs agora, poderia dar a impresso de estar bisbilhotando. Ento dirigiu-se ao seu escaninho e tentou 
pensar quais os livros que precisaria levar para casa, para estudar no final de semana. Afinal, pegou-os e fechou a portinhola. Quando se virou, o colega ainda estava 
conversando com as outras alunas.
       hora do almoo, havia combinado com Ronny e Vicki que eles se encontrariam em sua casa s 5:30h para irem jantar. Depois, iriam assistir a um jogo de futebol 
americano. Portanto no tinha mais necessidade de falar nada com o colega. Ao que parecia, ele queria continuar conversando com as duas garotas.
      Selena deu mais uma espiada para ele e em seguida foi descendo corredor abaixo, em direo ao estacionamento. Contudo algo a estava incomodando. Era o versculo, 
na parte que falava sobre ter o mesmo sentimento, ter unidade uns com os outros. Reconheceu que no estava nem tentando buscar uma unidade com aquelas colegas.
      Respirou fundo para ganhar coragem e fez uma breve orao. A seguir, virou-se e voltou ao lugar onde estavam Rouny e as garotas. Aproximou-se do grupo sorrindo.
      - Voc tem razo, dizia uma das meninas para o rapaz. Entendo perfeitamente o que est dizendo, mas o ser humano no  assim. No podemos sair dizendo a todo 
mundo que temos de atuar em unio, achando que isso vai acontecer automaticamente.
      - Oi, gente! disse Selena, entrando na "rodinha". Meu nome  Selena.
      - Ns j sabemos. Vimos voc na plataforma.
      - Eu no sei o nome de vocs, replicou a garota, procurando dar um tom de sinceridade s palavras.
      As duas eram novatas na escola nesse ano, e Selena no lhes dera muita ateno.
      - Meu nome e Sarah, disse uma delas, a que parecia mais calada. E ela  Jennifer.
      - Vocs esto pensando em ir ao jogo hoje  noite? indagou Selena.
      As meninas se entreolharam.
      - No tnhamos pensado nisso, respondeu Jennifer.
      - Mas talvez a gente v, disse a outra, ainda hesitando um pouco.
      - Ns vamos, interveio Ronny. Se vocs quiserem sentar conosco, a gente pode se encontrar l. Podemos guardar lugar pra vocs.
      - Obrigada! exclamou Sarah sorrindo.
      Jennifer tambm sorriu, embora parecesse meio relutante.
      - , disse ela, no ds pra ficar com raiva de um cara que est sendo to legal com a gente!
      E em seguida, adiantou-se e esfregou de leve a cabea do rapaz.
      - Depois a gente se ve ento, cabelinho espetado!
      As duas garotas se viraram e foram saindo.
      - Tchau! A gente se encontra no jogo, ento! gritou Selena para elas.
      Em seguida, virou-se para o amigo.
      - Cabelinho espetado? indagou, erguendo uma sobrancelha.
      Ronny deu de ombros.
      - , j me deram apelidos piores, hoje.
      - Acha que o pessoal entendeu tudo o que disse? Ser que alguns concordam com voc?
      - A maioria concorda.
      - Ser, ento, que  possvel haver certa unidade na escola?
      - No sei, mas espero que sim, respondeu o rapaz.
      Os dois foram caminhando em direo ao estacionamento.
      - A Vicki vai se encontrar conosco na sua casa ou no restaurante? perguntou Ronny.
      - Na minha casa, esqueceu? Vamos nos encontrar l por volta de 5:30h.
      - 5:30h, repetiu o rapaz. O.k. Tchau.
      Selena entrou no carro e foi para casa pensando em como tinha sido fcil conversar com Sarah e Jennifer, depois que Ronny j havia iniciado o papo com elas. 
Algum tempo atrs, nunca teria imaginado que iria se tornar amiga da Vicki. Com isso, compreendeu que, se comeasse a tomar a iniciativa de travar amizade com outras 
colegas, esse ano escolar poderia ser o melhor da sua vida. E seria maravilhoso, como dissera Ronny, se o ltimo ano de estudos fosse marcado por um senso de unidade 
na escola, onde todos os alunos atuassem com um s sentimento. Era possvel que nem todos quisessem se esforar nesse sentido. Contudo sabia que ela queria. E devia. 
No havia nenhum empecilho para ela fazer tudo que estivesse ao seu alcance para promover a unidade entre os alunos.
      Quando entrou na rampa da garagem, viu o pai sentado no balano da varanda, tendo V May ao lado dele. Sobre o colo dela, estava estendida uma colcha de retalhos, 
para proteg-la da friagem. Era uma tarde fresca e agradvel. No cu, havia hum fina camada de nuvens. Seus irmos, Kevin e Dilton, estavam sentados no cho da varanda, 
sobre um tapete velho, brincando com um joguinho. Brutus, o co da famlia, que, ao que parecia, pensava fazer parte dela, achava-se amarrado a uma pilastra, por 
uma corda longa. Quando ele avistou Selena, ps-se a latir e a babar e correu na direo dela.
      - Quieto, Brutus! disse a garota, passando a mo atrs das orelhas dele e coando-lhe o plo. Sou eu!
      Pegou-o pela coleira e caminhou com ele at a varanda.
      - Que est havendo por aqui? indagou.
      - Nada, respondeu o pai.
      - Cad mame?
      - Ela tirou a tarde de folga, explicou Kevin. Vamos pedir pizza para jantar.
      - Ela foi fazer umas compras, completou o pai, dando mais detalhes alm da explicao de Kevin.
      Selena tinha ouvido os pais fazerem um acordo. Eles haviam combinado que uma vez por semana o pai voltaria do trabalho na hora do almoo. Assim a me teria 
a tarde livre para fazer o que quisesse ou precisasse, sem se preocupar com V May. Isso significava que o pai teria de trazer servio para casa ou ento trabalhar 
no sbado de manh. Contudo ele afirmou que no se importava.
      - Pai, o senhor me pediu para lembr-lo de verificar o leo do meu carro neste final de semana, disse a garota.
      -  verdade, filha. Obrigado!
       - E hoje  noite, vou jantar com Ronny e Vicki, e depois vamos ao jogo. Acho que at 10:30h devo estar de volta. 'T bem?
      - Se voc perceber que vai passar dessa hora, d uma ligada pra c, disse o pai. Sabe que tem de estar de volta at s 1 l:00h, n?
      - Sei, concordou a garota.
      Inclinou-se para a av e deu um aperto de leve na mo dela. Estava aquecida.
      - Passou bem o dia, v? perguntou.
      A senhora sorriu para a neta, dando a impresso de no saber quem era ela nem entender o que ela dissera.
      - Gosto muito da senhora, v, disse a garota, dando um beijinho no dorso da mo enrugada.
      - Tambm gosto muito de voc, replicou a senhora.
      - Bom, vou me aprontar pra sair, comentou Selena. Espero que no chova.
      - Pelo que diz a meteorologia, no deve chover, no, interps o pai. A previso do tempo deu cu nublado, mas sem chuva at domingo.
      A garota deu um passo por cima das pernas de Kevin e abriu a porta. Assim que entrou, o telefone tocou. Tirou a mochila das costas e pegou o aparelho sem fio, 
na cozinha. Era Tnia. As duas ficaram a conversar como velhas amigas durante dez minutos. Selena contou a irm acerca da deciso importante que Ronny tomara. A 
outra falou-lhe sobre a srie de fotos que estava fazendo, com roupas e acessrios em estilo westem.
      - No aguento mais ouvir msica country, disse a jovem. Tocam o dia inteiro. J estou com vontade de gritar.
      - No lhe falei? indagou Selena rindo.
      A garota estava sentada ao balco da cozinha, mas resolveu ir com o telefone para o escritrio e ligar o computador. Queria verificar se havia chegado algum 
e-mail para ela. Talvez o Paul tivesse lhe mandado uma mensagem.
      - A questo  que eles pagam muito bem, e estou satisfeita por ter arranjado esse trabalho.
      - J recebeu alguma resposta da Lina? quis saber Selena.
      Tnia ficou em silncio por uns instantes.
      - No, respondeu afinal, mas tudo bem.  verdade que no desisti, no. Entretanto o importante para mim  que eu lhe disse o que pretendia, isto , queria 
agradecer a ela. Se eu fosse um pouco menos egosta, no iria querer que ela me respondesse. Mas no sou. E talvez algum dia ela ainda responda.
      - Acredito que deve ter sido um choque muito grande pra ela, comentou Selena, ligando o computador. D algum tempo. Talvez ela precise de umas semanas ou meses 
pra pensar bem nisso tudo.
      - , eu sei, replicou Tnia. Tambm j pensei nisso. J analisei essa questo de todos os ngulos possveis, pode acreditar. E esperar, para mim, no  problema.
      - Quer falar com papai? Mame saiu.
      - No, apenas d um abrao, que eu mandei. Estou s "assinando o ponto" com a famlia.
      - Est com saudade de ns, n? falou a garota sorrindo, lembrando que suas perguntas diretas sempre irritavam a irm.
      Tnia riu. Era um riso de quem quer disfarar uma emoo. Por fim, respondeu:
      - 'T bom! , estou com saudade, sim! Pronto. Agora voc j sabe. Est admirada?
      - No, replicou Selena. Ns tambm estamos com saudade, Eu estou com saudade de voc.
      Aps a confisso, as duas ficaram em silncio por uns instantes, como que se sentindo meio sem jeito. Tnia foi a primeira a quebr-lo.
      - Bom, acho melhor desligar, seno vou gastar todo o dinheiro das fotos na conta de telefone.
      - D um abrao no Jeremy.
      - Darei. Ele vai vir aqui agora  noite para irmos jantar fora. E hoje sou eu que vou pagar, j que estou "mais rica" que ele. Vamos a uma churrascaria.
      - Hummm, legal! exclamou Selena. Ento, depois a gente se fala. Tchau!
      Tnia desligou, e a garota se ps a examinar os e-mails que haviam chegado. Eram apenas dois; ambos para o pai. Paul no mandara nada.
      A garota desligou tudo e ia sair do escritrio, quando resolveu sentar-se na sua poltrona predileta. Parecia o lugar mais adequado para se entregar a uma crise 
de autopiedade. Nesse momento, notou uma foto no assento. Pegou-a. Era um carto postal. Retratava um majestoso castelo europeu, construido no alto de um morro, 
fotografado ao amanhecer. O cu, por trs da grande construo cinzenta, apresentava-se de uma cor azul-clara, com raios rosados.
      Quem teria mandado um carto desses para seu pai? Virou-o e viu seu nome escrito em letras grandes, em tinta preta. Leu:
      
      Selena,
      Esse  o nosso famoso Castelo de Edimburgo. Espero que um dia voc possa vir aqui para v-lo. No final de semana, vou lhe escrever uma carta maior, mas quis 
mandar este postal para agradecer pela sua cartinha. Ela me fez dar boas risadas. Olhe, acho que no devemos nos corresponder por e-mail. Mandar carta, apesar de 
meio antiquado, fortalece mais o relacionamento e tem um sentido mais permanente. Alias, at gosto de ficar esperando sua correspondncia.
      Ns temos muito tempo pela frente, Selena. Vamos curtir esse ritmo mais lento.
      Paul
      
      Selena sorriu, virando o postal para dar mais uma espiada na romntica foto do castelo. Em seguida, leu a mensagem novamente. Muito boa. No tinha nada de 
emocional demais nem era fria. Ele estivera pensando nela. Disse que depois escreveria mais. E afirmara que tinham muito tempo pela frente. Gostou. Paul tinha razo. 
Corresponder-se por e-mail era ligado a rapidez e imediatismo. Para que a pressa?
      Fechou os olhos e aproximou o carto do rosto, como se pudesse aspirar os aromas da Esccia no retrato. Sabia que era bobagem.
      Abriu os olhos e deu uma espiada  sua volta. Como aquele carto viera parar ali na poltrona? Dava para deduzir. Seu pai, que conhecia bem o corao da filha, 
fora quem recolhera a correspondncia nessa tarde. Ele devia saber que ela iria se sentar ali, na sua cadeira predileta, e encontraria o postal - um tesouro escondido. 
Sorriu ao pensar nisso.
      Levantou-se e subiu para o quarto, para se arrumar para sair. Enfiou o carto debaixo do travesseiro. Essa era a maneira certa de sonhar com um castelo. E 
era assim que devia enxergar o Castelo de Edimburgo - algo distante e para o futuro.
      Vicki iria chegar a qualquer momento. Essa noite, ela queria passar uns momentos agradveis com seus amigos que se achavam perto e pertenciam ao seu presente. 
E o melhor de tudo era que quem iria pagar a conta era seu velho amigo Ronny, o "cabelinho espetado".
      
      
      
Fim



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